Com um aporte de R$ 1 bilhão, a maior doação já realizada pela iniciativa privada no País, o projeto anunciado pelo banco para combater o Covid-19 será coordenado por sete especialistas da área da saúde e busca dar agilidade a políticas e prioridades definidas pelas autoridades sanitárias

Nas últimas semanas, os grandes bancos no Brasil passaram a ser alvo de uma onda crescente, cobrando doações e uma participação mais contundente no combate ao coronavírus. O argumento que engrossava esse coro nas redes sociais era simples. Até o fim da semana passada, essas instituições haviam destinado pouco mais de R$ 500 milhões à luta contra a pandemia, segundo o Monitor Covid-19, desenvolvido pela Associação Brasileira de Captadores de Recursos.

Comparado aos lucros anuais reportados pelo setor, o montante injetado, até então, era uma gota no oceano. O Itaú Unibanco, ao que tudo indica, escutou esses questionamentos. No domingo, 12 de abril, o colunista Elio Gaspari revelou que o banco doaria R$ 1 bilhão a essa causa, o que consolidaria a maior iniciativa filantrópica já realizada no País.

Na manhã desta segunda-feira, o Itaú Unibanco confirmou o montante e deu mais detalhes sobre como e onde esse dinheiro será aplicado. Até então, o banco já havia destinado cerca de R$ 250 milhões em outras iniciativas ligadas à pandemia. Entre elas, a produção e aquisição de testes, máscaras de proteção e kits de higiene e de alimentos para famílias em situação vulnerável.

“O banco está assumindo seu papel como cidadão corporativo e esperamos encorajar outras empresas a seguirem o mesmo caminho”, afirmou Candido Bracher, presidente do Itaú Unibanco, sobre a iniciativa.

O executivo também respondeu às críticas sobre o valor anunciado, que representa 3,5% do lucro líquido reportado pelo banco em 2019, de R$ 28,4 bilhões. Ele ressaltou que o aporte será feito por meio de um endowment e que o montante não goza de qualquer benefício fiscal diferente de qualquer outra despesa da companhia. E destacou que essa é a maior doação privada já realizada no País para uma causa específica.

“O mais importante é o fato de que não basta ter os recursos, mas saber como alocá-los”, disse. “Nós buscamos especialistas, que serão os únicos responsáveis por deliberar sobre o uso desse montante.” Batizada de Todos pela Saúde, a iniciativa contará com uma equipe de voluntários, liderada por Paulo Chapchap, diretor-geral do Hospital Sírio Libanês.

O grupo conta ainda com a participação do médico e escritor Drauzio Varella; de Sidney Klajner, presidente do hospital Albert Einstein; de Mauricio Ceschin, ex-diretor-presidente da Agência Nacional de Saúde; de Eugênio Vilaça Mendes, consultor do Conselho dos Secretários de Saúde; de Gonzalo Vecina Neto, ex-presidente da Anvisa; e de Pedro Barbosa, diretor-presidente do Instituto de Biologia Molecular do Paraná, ligado à Fiocruz.

“O diagnóstico das necessidades será do poder público”, afirmou Chapchap. Ele ressaltou que todas as estratégias serão desenvolvidas exclusivamente a partir do diálogo com autoridades de saúde nos âmbitos federal, estadual e municipal, com atenção prioritária ao Sistema Único de Saúde (SUS). “A partir desse contato e dos conhecimentos do grupo, poderemos priorizar melhor a alocação dos recursos e responder com mais velocidade e contundência a essas demandas.”

Quatro eixos

A estratégia definida envolve quatro eixos. O primeiro deles é a informação, por meio de campanhas que incentivem questões como o uso de máscaras e as práticas de higiene. A segunda frente é a proteção, com iniciativas como o financiamento de equipamentos de proteção individual e de testes do Covid-19.

Os participantes do Todos pela Saúde, durante anúncio do projeto

Ao mesmo tempo, o projeto passará por esforços de apoio aos gestores de saúde e aos hospitais, com a formação de gabinetes de crise, a compra e a distribuição de insumos e o uso de recursos de telemedicina. Na última ponta, a ideia é desenvolver ações que garantam o retorno seguro à normalidade, o que inclui programas de monitoramento e do controle da incidência do vírus entre a população.

Entre as ações já em andamento, Chapchap destacou uma campanha de publicidade que será veiculada em todo o País. “Já temos também equipes se deslocando em diferentes Estados para apoiar a formação de comitês de crise”, afirmou. “A ideia é diagnosticar em quais regiões os equipamentos e insumos são mais necessários”, completou, citando cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus, Fortaleza e também o Distrito Federal como primeiros alvos desses esforços.

“No limite, podemos patrocinar a criação de laboratórios, se essa estrutura não for suficiente para atender toda a demanda”, Paulo Chapchap

Outro componente já em curso é o reforço da capacidade de realizar testes do Covid-19 no País. “A Fiocruz, desde já, assumiu o compromisso de produzir ao menos 10 milhões de testes, que começarão a ser entregues nessa semana”, afirmou Pedro Barbosa.

“O grande desafio é a capacidade para processar esses testes”, disse Chapchap, ressaltando que a estrutura de análise dos exames precisa ser reforçada e que as formas de apoio para reduzir essa lacuna estão sendo estudadas. “No limite, podemos patrocinar a criação de laboratórios, se essa estrutura não for suficiente para atender toda a demanda”, afirmou, acrescentando que a ideia é fomentar ao máximo a cadeia produtiva local na área da saúde.

Consenso

À parte das ações que serão desenvolvidas, entre os especialistas envolvidos na iniciativa, há um consenso sobre duas questões polêmicas no entorno da pandemia: o isolamento e o uso da cloroquina, defendido pelo presidente Jair Bolsonaro.

“Vamos nos ater às demonstrações e evidências científicas”, afirmou Drauzio Varella. “O isolamento é muito importante na contenção do vírus e é a forma mais eficiente para evitar que o sistema de saúde entre em colapso.”

Sidney Klajner reforçou a visão de que todas as ações do projeto serão baseadas em argumentos científicos. Nessa direção, ele destacou os estudos que vêm sendo realizados por hospitais como o Albert Einstein e o Sírio Libanês. “Em relação à cloroquina e outros tratamentos, até o momento, não há robustez suficiente para emitir qualquer opinião”, disse ele, que também defendeu o isolamento horizontal. “Estamos diante de uma crise só. Não vejo conflito.”

Para Pedro Barbosa, a política do isolamento deve ser mantida, inclusive, para dar tempo para que as pesquisas científicas tragam respostas sobre as melhores alternativas de tratamento. “Mas essa discussão precisa ser acompanhada de ações mais claras do Estado, de prover condições e renda mínima a quem mais precisa”, ressaltou. “De tal modo que essa população mais vulnerável possa ter segurança para praticar esse isolamento.”

“Temos um sistema de saúde muito bom, mas também muito desigual. E vamos pagar o preço agora por essa desigualdade”, afirma Drauzio Varella

Além do Estado, o papel de toda a sociedade foi destacado por Mauricio Ceschin. “Esse vírus afeta a humanidade sem distinção de raça, credo ou classe social. Por outro lado, a desigualdade dificulta o combate”, afirmou. “Não podemos deixar passar a oportunidade de entender, definitivamente, a nossa interdependência como sociedade. Todos somos responsáveis pela solução desse problema.”

A importância de reduzir as desigualdades e de tirar lições da pandemia foi ressaltada por todos. “Temos um sistema de saúde muito bom, mas também muito desigual. Vamos pagar o preço agora por essa desigualdade”, disse Varella. “E vamos ter outras epidemias locais. Isso precisa ser resolvido.”

Barbosa acrescentou, destacando a necessidade do maior envolvimento da iniciativa privada nesse processo: “Essa é a crise mais grave que enfrentamos, mas não será a última”, afirmou. “Nós temos grandes conglomerados e grandes fortunas nesse País. Está mais do que na hora deles seguirem esse exemplo e procurarem, de fato, ajudar a construir uma sociedade melhor.”

Fonte | NeoFeed  Foto | Divulgação

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