Processo formativo será concluído em setembro com evento aberto ao público
Uma iniciativa inédita de formação em comunicação popular, com enfoque em questões climáticas, reúne juventudes de comunidades tradicionais, assentamentos e acampamentos rurais, além de estudantes universitários, e chega à sua etapa final em Mato Grosso, neste mês de setembro. Trata-se do Núcleo Clima em Rede (NumaRede), projeto realizado pelo Fórum Popular Socioambiental de Mato Grosso (Formad) e que concluiu a primeira turma com 18 comunicadores populares de diferentes territórios do estado. Após meses de oficinas formativas, os jovens se preparam para dar imagens e vozes às narrativas construídas coletivamente e que retratam o cotidiano de suas comunidades.
“Minha felicidade hoje é morar em uma casa que não alaga”, “Não dá pra entender que isso não seja notícia em jornal algum!”, “Vi a água do rio baixar desde que eu era criança e quase não dá mais pra ver”, “Estou estudando na cidade, mas meu sonho é voltar para a minha comunidade e continuar lá”, “Nunca imaginei que a vida em um acampamento fosse assim”, são alguns dos relatos dos dias de encontros presenciais, em que juventudes se misturam, assim como as suas realidades.
O coletivo, que iniciou as atividades com nove integrantes, em alguns meses, dobrou o número de participantes envolvidos, graças à parceria das filiadas do Formad, Comissão Pastoral da Terra (CPT-MT) e Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB-MT) que buscam atender à demanda de formação política em comunicação e renovação de representantes e lideranças de seus territórios. Criado em 1992, o Formad possui 35 entidades filiadas e tem, nos últimos anos, investido na comunicação como instrumento de valorização e visibilidade de povos e territórios.
Núcleo Clima em Rede é um projeto apoiado por Misereor e financiado pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS) no Eixo de Comunicação e Mobilização da frente de Fortalecimento de Povos Indígenas, Quilombolas e Comunidades Tradicionais na ação e governança climática. Idealizada em processos formativos tendo a Educomunicação como fio condutor, a proposta é ir além da capacitação técnica/conceitual, trazendo uma construção e formação política de jovens que, desde criança, vivenciam as ameaças e resistências em seus territórios ao mesmo tempo em que aprendem sobre o tempo da colheita, a importância da preservação das águas e os saberes e conhecimentos ancestrais de quem construiu do chão a história que hoje eles podem contar.
“Todo o planejamento deste processo foi pensado mais na construção política dos jovens do que técnicas e práticas de comunicação em si. A proposta é de contribuir com a formação deles enquanto indivíduos capazes de compreender os impactos da crise climática e como isso tem afetado os seus territórios para transformar tudo isso em instrumento de luta, resistência e enfrentamento. Nem todos sairão comunicadores populares, mas certamente, saberão o poder da comunicação para as suas comunidades. Foi um processo de amadurecimento, partilha de experiências e muita troca”, destaca Bruna Pinheiro, jornalista do Formad e coordenadora do projeto.
Para setembro está marcado o último dos quatro encontros presenciais em Cuiabá (MT), mas agora com um evento aberto ao público. A programação reunirá os trabalhos desenvolvidos pelas juventudes comunicadoras em atividades que misturam cultura, política, comunicação, juventude, música e outras artes. As atividades serão realizadas nos dias 25 e 26 de setembro. Parte da programação será aberta ao público, em local e horário que ainda serão divulgados.
Quem é quem
A primeira turma é composta por 18 jovens, provenientes de territórios da Amazônia, Cerrado e Pantanal, além de estudantes de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em um intercâmbio de experiências e formação política para aprimoramento de habilidades. Participam jovens de comunidades pantaneiras e extrativistas, além de acampamentos e assentamentos rurais das cidades de Cáceres, Colniza, Novo Mundo, São Félix do Araguaia e Sinop.
Realizado pelo Formad, por meio do Instituto Caracol, o projeto tem o acompanhamento metodológico de aProteja.org e apoio técnico do Grupo de Pesquisas em Educação Ambiental (GPEA-UFMT). “Para a rede Formad, este núcleo só tem a somar com a construção coletiva de uma comunicação mais popular, próxima dos territórios e que seja produzida e conduzida pelas comunidades. É a nucleação da nossa comunicação para chegar a mais lugares e abranger ainda mais pautas. Sem dúvidas, é um fortalecimento essencial e que marca uma etapa de ampliação desta rede”, frisa o secretário executivo do Formad e supervisor geral do projeto, Herman Oliveira.
A construção da rede
Já nas primeiras atividades em Cuiabá (MT), com o compartilhamento de registros fotográficos ou audiovisuais, as juventudes davam sinais da riqueza de produtos que podem sair dos territórios, onde importa muito mais o conteúdo do que a técnica utilizada. A discussão sobre o clima é a base para a abertura de outros diálogos sobre tradições, comunicação, política, pressões, legado, cultura, etc.
Outro ponto do trabalho em rede é a construção das propostas de produtos e entregas, bem como a programação das atividades, respeitando as diversas realidades e condições. Foram criadas agendas virtuais preparatórias e de acompanhamento das produções, com a possibilidade de interação entre os jovens ao longo de todo o processo.
“A proposta metodológica central foi partir do que já existe nos territórios e fortalecer as organizações das quais esses jovens fazem parte. Ao longo da formação, buscamos aproximar as demandas das organizações do processo vivido pelas pessoas participantes, incorporando a comunicação popular às estratégias de mobilização e defesa dos territórios. Para nós, da aProteja, esse é um sentido fundamental da comunicação popular, fortalecer quem já atua nas comunidades para produzir suas próprias narrativas e ampliar a incidência política das organizações que integram o Formad”, afirma Midori Hamada, da aProteja.org.
Fortalecimento de bases para fortalecer uma rede
O Formad reúne organizações com diferentes tamanhos, estruturas e experiências, distribuídas por várias regiões de Mato Grosso. Essa diversidade pode fortalecer a construção de uma rede de comunicação popular, a exemplo do Núcleo que parte das relações que já existem entre essas organizações para aproximar os territórios e ampliar a colaboração entre os grupos.
A proposta é que cada organização contribua a partir das habilidades que já possui. Um grupo com mais experiência em audiovisual pode apoiar outro na edição de um vídeo. Quem tem facilidade com texto pode colaborar na revisão de uma matéria. Organizações com maior estrutura de comunicação também podem compartilhar aprendizados com grupos que ainda estão fortalecendo essa área. Dessa forma, o conhecimento circula dentro da própria rede e amplia a capacidade coletiva do Formad de produzir narrativas a partir dos territórios.
Essa articulação também ajuda a lidar com as distâncias que marcam o estado. Alguns participantes das oficinas levam até dois dias para chegar até Cuiabá para as atividades presenciais do NumaRede. Fortalecer comunicadores nos próprios territórios cria condições para que as pautas sejam registradas a partir de onde acontecem e depois circulem pela rede.
O Núcleo busca fortalecer esses vínculos de solidariedade entre as organizações, criando uma rede de comunicação em que diferentes capacidades possam se complementar e contribuir com a atuação coletiva do Formad.











