De executiva à voz de propósito: a virada de Sheila do burnout ao impacto social



Em um ambiente onde produtividade e alta performance ainda são frequentemente tratados como sinônimos de sucesso, histórias como a de Sheila revelam uma mudança silenciosa e necessária no perfil das lideranças femininas no Brasil

Filha de empreendedores, Sheila cresceu em um ambiente onde o trabalho não era apenas uma obrigação, mas um valor estruturante. Desde cedo, demonstrava inclinação para o universo dos negócios. Ainda na infância, brincava com calculadoras, recibos e simulações financeiras. O acesso às oportunidades vinha acompanhado de um alto nível de exigência, que, com o tempo, deixou de ser apenas externo e passou a ser autoimposto.

Essa disciplina moldou sua formação. Dividida entre os cursos de Economia e Direito, conciliava ainda a rotina no frigorífico da família. O plano inicial era seguir carreira na magistratura, mas a trajetória tomou outro rumo quando decidiu empreender ao lado do então namorado, Marcos.

Juntos, trouxeram uma grande marca de chocolate para Cuiabá, consolidando um negócio que rapidamente se tornou central em sua vida.

Aos 31 anos, com o nascimento do primeiro filho, Sheila passou a viver o que muitas mulheres executivas enfrentam: a tentativa de performar simultaneamente em múltiplos papéis, como mãe, empresária, esposa e gestora, todos em alto nível.

A sobrecarga, inicialmente silenciosa, ganhou força ao longo dos anos. Mesmo após uma transformação espiritual iniciada em 2010, que trouxe mais leveza e consciência sobre prioridades, o padrão de exigência permaneceu elevado.

O ponto de inflexão veio em 2017, com uma crise familiar grave. Seu marido enfrentou uma doença que quase o levou à morte. O episódio redesenhou prioridades, mas não interrompeu completamente o ritmo interno de cobrança.

Quando o corpo cobra

Os primeiros sintomas vieram de forma sutil. Tonturas, dores de cabeça e cansaço constante deram lugar a sinais emocionais mais profundos, como ansiedade, apatia e perda de sentido nas atividades cotidianas.

Após uma série de exames sem alterações físicas, veio o diagnóstico de burnout. A síndrome, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como fenômeno ocupacional, tem se tornado cada vez mais comum, especialmente entre mulheres em posições de alta responsabilidade.

Para Sheila, no entanto, o impacto foi além do diagnóstico. “Eu acreditava que já tinha vivido o momento mais difícil da minha vida. Mas o burnout me levou a um lugar diferente: o vazio”, relata.

Reconstrução: limites, identidade e escolha

O processo de recuperação exigiu um redesenho completo de vida. Terapia, acompanhamento médico e mudanças práticas passaram a fazer parte da rotina.
Mais do que tratar sintomas, Sheila iniciou um processo profundo de autoconhecimento, aprendendo a estabelecer limites e a reconhecer suas próprias necessidades.

A agenda, antes marcada por excesso de responsabilidades, passou a incluir pausas. O autocuidado deixou de ser exceção e se tornou prioridade. Atividades antes associadas à culpa passaram a ser vistas como ferramentas de equilíbrio.

Hoje, ela define sucesso de forma diferente. Não mais pela produtividade, mas pela capacidade de viver com leveza, presença e alinhamento com o próprio propósito.

Do colapso ao impacto social

Foi em meio a um dos momentos mais delicados de sua vida pessoal que nasceu o Instituto Sow. Durante o período de recuperação de seu marido, Sheila se deparou com a realidade de uma família em extrema vulnerabilidade após o AVC de uma criança.

Sem recursos próprios para resolver a situação, mobilizou sua rede de contatos e, em poucos dias, estruturou toda a casa da família com itens básicos. A experiência marcou o início de um movimento que cresceu de forma orgânica e consistente.

Hoje, ao longo de 9 anos, o Instituto Sow já ajudou milhares de crianças e atua de forma estruturada ao longo do ano.

O trabalho da instituição não se limita à distribuição de alimentos, mas se estende a ações estruturadas ao longo do ano, alinhadas ao calendário social e a datas simbólicas. Entre elas estão campanhas de arrecadação de material escolar no início do ano, iniciativas no Mês das Mães e no Mês da Solidariedade, ações no Dia das Crianças com o Diversow Day, além das tradicionais campanhas de Natal.

Em todas essas frentes, o foco está na promoção da dignidade, na educação emocional, no acesso à cultura e no desenvolvimento comunitário.

Uma nova liderança em construção

Mais do que assistência, o instituto se posiciona como um agente de transformação social, atuando tanto na vida de quem recebe quanto de quem participa das ações.

A trajetória de Sheila reflete uma mudança no conceito de liderança. Ao migrar de um modelo baseado em controle e exaustão para outro centrado em consciência, equilíbrio e propósito, ela passa a ocupar um novo espaço de influência.

Seus próximos passos incluem ampliar esse impacto por meio de palestras, projetos autorais e conteúdos voltados especialmente para mulheres que enfrentam o esgotamento emocional.

Em um cenário onde o burnout já é considerado uma epidemia silenciosa, sua história aponta não apenas para um alerta, mas para um caminho possível. Um caminho em que sucesso deixa de ser sobre o que se produz e passa a ser sobre o que se sustenta internamente.

Via | Assessoria

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