Uma semana após tragédia da chuva que causou enchentes em 13 cidades do Sul do Espírito Santo, moradores ainda tentam limpar casas, comércios e ruas, e contam com a solidariedade, ajuda de voluntários e doações que chegam de todo o estado.

Sete dias se passaram desde a histórica noite do dia 22 de março, quando uma forte chuva atingiu várias cidades do Sul do Espírito Santo, deixando ao menos 20 mortos, milhares de pessoas sem suas casas e um rastro de destruição.

Treze municípios da região foram afetados e estão em situação de emergência. Em todos, ainda é possível ver muita sujeira e lama pelas ruas. Em meio ao caos, moradores tentam, aos poucos, reconstruir e se reerguer com o pouco do que restou. E neste fim de semana, a previsão é de mais chuva, que já chegou no início da tarde em várias cidades da região, inclusive com queda de granizo.

Além de vidas perdidas na tragédia das chuvas, o prejuízo passa pela perda de casas, roupas, móveis e documentos. Muitas famílias perderam tudo e se viram sem ter para onde ir. A força da água quebrou portões de ferro, derrubou casas inteiras, cobriu imóveis, além de arrastar dezenas carros e até caminhão do Corpo de Bombeiros.

Carros revirados após as chuvas fortes em Mimoso do Sul, ES — Foto: Fernando Madeira
Carros revirados após as chuvas fortes em Mimoso do Sul, ES — Foto: Fernando Madeira

De acordo com o boletim extraordinário divulgado pela Defesa Civil do Espírito Santo às 11h deste sábado (30), o temporal deixou ao menos 20 pessoas mortas e duas desaparecidas. Os óbitos foram registrados em Mimoso do Sul (18 mortos) e Apiacá (2 mortos). Essas duas cidades, aliás, foram as mais atingidas pelo temporal.

Além de mortos e desaparecidos, 11.352 pessoas tiveram que deixar suas casas, sendo que 11.087 ainda estão desalojadas (foram para residência de familiares ou amigos) e outras 265 estão desabrigadas, isto é, perderam o imóvel e foram encaminhados a abrigos públicos no Espírito Santo.

Chuva em Mimoso do Sul, ES — Foto: Fernando Madeira
Chuva em Mimoso do Sul, ES — Foto: Fernando Madeira

As cidades em situação de emergência são: Alegre, Alfredo Chaves, Apiacá, Atílio Vivacqua, Bom Jesus do Norte, Guaçuí, Jerônimo Monteiro, Mimoso do Sul, Muniz Freire, Muqui, Rio Novo do Sul, São José do Calçado e Vargem Alta.

Dias para contabilizar prejuízos

Restos de móveis, roupas e eletrodomésticos jogados nas calçadas após enchente em Mimoso do Sul, Espírito Santo — Foto: Reprodução/TV Gazeta
Restos de móveis, roupas e eletrodomésticos jogados nas calçadas após enchente em Mimoso do Sul, Espírito Santo — Foto: Reprodução/TV Gazeta

Pelas ruas das cidades, a cena mais comum é a de moradores tirando a sujeira das casas e colocando tudo na calçada ou na rua. Num primeiro momento, a ideia é organizar a situação.

Misturado com lama e sujeira, restaram apenas pedaços de móveis, alguns eletrodomésticos que não têm mais utilidade e roupas. Tudo virou entulho jogado nas ruas. Em Mimoso do Sul, não há previsão para término da limpeza.

Mimoso do Sul, ES — Foto: Fernando Madeira
Mimoso do Sul, ES — Foto: Fernando Madeira

Na cidade, comerciantes também contabilizam seus prejuízos enquanto fazem a limpeza dos estabelecimentos. A maioria estima perda total de mercadorias e equipamentos.

“O teto está caindo na nossa cabeça, não conseguimos tirar as coisas, não tem da onde tirar nada para recomeçar, não sobrou nada! Acabou tudo. Eu perdi minha farmácia, foram 15 anos perdidos, é desesperador. Olha essa cidade, a gente precisa de ajuda”, lamentou Maythê Bullos, proprietária de uma farmácia em Mimoso.

Mimoso do Sul, no Sul do Espírito Santo, ainda com muita lama uma semana após enchente — Foto: Reprodução/TV Gazeta
Mimoso do Sul, no Sul do Espírito Santo, ainda com muita lama uma semana após enchente — Foto: Reprodução/TV Gazeta

No comércio de Nivaldo da Silva, a fábrica de picolés e sorvetes é que teve a maior destruição. Ele estimou uma perda de 100 mil unidades.

“Olha a situação: perdi dois congeladores, maquinário, estoque, 50 sacos de açúcar, câmara fria, material pra fazer açaí, e os picolés… 100 mil picolés. Agora é esperar em Deus, nem sei o que fazer”, disse.

Nivaldo da Silva estima que perdeu 100 mil picolés em sua fábrica em Mimoso do Sul. Espírito Santo. — Foto: TV Gazeta
Nivaldo da Silva estima que perdeu 100 mil picolés em sua fábrica em Mimoso do Sul. Espírito Santo. — Foto: TV Gazeta

Nesta semana, Dinomar dos Anjos, proprietário de uma loja de roupas no centro de Mimoso, teve que contar com a ajuda de amigos e familiares para retirar as mercadorias perdidas em seu estabelecimento. Ele estima prejuízo de R$ 1,2 milhão.

Dinomar dos Anjos, proprietário de uma loja de roupas no centro de Mimoso do Sul, estima um prejuízo de R$ 1,2 milhão de prejuízo em mercadoria. Espírito Santo 2 — Foto: TV Gazeta
Dinomar dos Anjos, proprietário de uma loja de roupas no centro de Mimoso do Sul, estima um prejuízo de R$ 1,2 milhão de prejuízo em mercadoria. Espírito Santo 2 — Foto: TV Gazeta

Surpreendendo quem passava pelo local, ele mantinha um sorriso no rosto, mesmo diante de tamanha tragédia, e enquanto fazia esse trabalho ainda mantinha a esperança de conseguir reverter a situação.

“Meu estoque todinho foi embora. Perdi todas as coisas da minha loja, mas fica a vida. Nós temos a vida, o sopro de vida, vamos lutar e conseguir de novo. Só falo para todo mundo: ‘Temos esperança, Deus no coração, e vamos todos trabalhar que vamos conseguir”‘, disse Nivaldo.

Em Apiacá, cidade vizinha de Mimoso do Sul, a situação não é diferente. Pelas ruas, a cena é de destruição e ainda muita lama. Enquanto tentam limpar as casas, do lado de fora ficam amontoados os restos de móveis, alguns eletrodomésticos e roupas sujas.

A limpeza no município ainda vai demorar. Serão pelo menos mais dez dias, segundo a prefeitura, que está ajudando a recolher os materiais com a ajuda de tratores e caminhões. Até homens do Exército, que foram enviados para as cidades, entraram nessa guerra de reconstrução.

Restos de móveis, roupas e eletrodomésticos jogados nas calçadas após enchente em Apiacá, Espírito Santo — Foto: Reprodução/TV Gazeta
Restos de móveis, roupas e eletrodomésticos jogados nas calçadas após enchente em Apiacá, Espírito Santo — Foto: Reprodução/TV Gazeta

Em Alegre, outra cidade atingida pela forte chuva, há muitos desabrigados e desalojados. Na cidade. veículos foram arrastados e agora as famílias também limpam o que sobrou dentro de casa.

Mutirão de limpeza

Em meio ao cenário de destruição, a solidariedade ganhou vez. No olhos dos moradores, mesmo uma semana depois de tudo, há um misto de tristeza e confusão na tentativa de assimilar tudo o que eles enfrentaram nesses últimos dias. Mas também há esperança de que vão conseguir se reerguer.

Mimoso do Sul, no Sul do Espírito Santo, ainda com muita lama uma semana após enchente — Foto: Reprodução/TV Gazeta
Mimoso do Sul, no Sul do Espírito Santo, ainda com muita lama uma semana após enchente — Foto: Reprodução/TV Gazeta

E o que une todas essas cidades e os moradores são a força para recomeçar, as doações que começaram a chegar um dia depois do desastre natural e o apoio de voluntários.

Mas depois de sete dias, a limpeza de alguns municípios, como Mimoso do Sul e Apiacá, continua sendo um desafio para que os moradores consigam retomar a rotina normal. Mutirões estão acontecendo ao longo desses dias.

Limpeza nas cidades mais atingidas pela chuva no Sul do Espírito Santo foi intensificada no feriado — Foto: Reprodução/TV Gazeta
Limpeza nas cidades mais atingidas pela chuva no Sul do Espírito Santo foi intensificada no feriado — Foto: Reprodução/TV Gazeta

Neste sábado, por ordem do governador Renato Casagrande, 80 alunos soldados da Polícia Militar do Espírito Santo forem deslocados de Vitória para Mimoso do Sul para ajudar na limpeza.

“São 80 alunos que farão a desobstrução da praça central e vias do entorno para melhorar o fluxo na cidade. Todo mundo portando enxada, vassouras, carrinhos… Vamos deixar essa rua limpa e em condições para que as pessoas circulem”, explicou coronel Fabrício, do 3º Comando de Polícia Ostensiva Regional. A expectativa é que os alunos e também 4 suboficiais fiquem até segunda-feira (1º) na cidade.

Uma das voluntárias responsáveis pela mobilização on-line foi Lara Fraga. Por meio de uma publicação nas redes sociais, ela convocou familiares e amigos para participarem da ação em Mimoso. A voluntária Nathalya Vitoriano veio da cidade de Muqui, localizada ao lado do município de Mimoso.

“A gente vem mesmo cansada e exausta emocionalmente, porque temos os nossos problemas também… Mas nessa hora a gente esquece de tudo”, disse.

Mutirão de limpeza em Mimoso do Sul, no Sul do Espírito Santo, ainda com muita lama uma semana após enchente — Foto: Reprodução/TV Gazeta
Mutirão de limpeza em Mimoso do Sul, no Sul do Espírito Santo, ainda com muita lama uma semana após enchente — Foto: Reprodução/TV Gazeta

Já o voluntário Igor Miéis é de Venda Nova do Imigrante, município da Região Serrana do Espírito Santo, e também estava com a mão na massa (ou melhor, na limpeza) nesta sexta-feira.

“A ajuda é muito bem-vinda e eu me sinto muito grato em poder fazer isso pelas pessoas”, comentou.

Além dos voluntários, as ações de limpeza da cidade contam ainda com tropas do 38° Batalhão de Infantaria do Exército Brasileiro, localizado em Vila Velha, na Grande Vitíoria. Os militares atuam nas cidades desde segunda-feira (25), após pedido do governador do Espírito Santo, Renato Casagrande.

Homens do Exército ajudam na limpeza de Mimoso do Sul, destruído pela chuva, no Espírito Santo — Foto: Reprodução/TV Gazeta
Homens do Exército ajudam na limpeza de Mimoso do Sul, destruído pela chuva, no Espírito Santo — Foto: Reprodução/TV Gazeta

Já a Marinha do Brasil cedeu um grupo com 83 fuzileiros (assista acima) para ajudar as comunidades mais afetadas, que está atuando em Mimoso do Sul e Apiacá desde quinta-feira (28).

O grupamento conta com 15 viaturas e as equipes já estavam trabalhando no desbloqueio de vias, transporte de suprimentos especiais, distribuição de água, e outras atividades desde quinta-feira.

Agradecimento à ajuda

A casa do pai do fisioterapeuta Alexandre Repinaldo foi invadida pela força da água. Todos os móveis e eletrodomésticos foram perdidos. Emocionado, o profissional disse que seria impossível fazer todo o trabalho sozinho. Ele mora em Mimoso do Sul.

“Eu agradeço do fundo meu coração. Fico até emocionado. A gente perdeu tudo”, desabafou.

A comerciante Maria Aparecida, que perdeu tudo, também não sabia como limpar a loja sozinha. No entanto, quando chegou ao local, havia pessoas esperando para ajudá-la.

“É muito gratificante porque, quando a chega, a gente acha que não vai ter como, que não vai ter solução. Mas eu sou uma mulher de muita fé. Eu creio que as coisas vão se ajeitar”, disse em lágrimas.

Doações de todos os lugares

Além da ajuda de voluntários, os capixabas fizeram uma corretente do bem com doações de todos os cantos do estado. São produtos como água, alimentos, roupas, colchões, itens de higiene pessoal e de limpeza. É a solidariedade entrando em campo como uma força a mais aos atigindos pela chuva.

Em Mimoso do Sul, por exemplo, a sede Cooperativa de Laticínios de Mimoso do Sul (Colamisul) tornou-se um centro de distribuição de donativos. Até uma cozinha improvisada foi montada para atender os moradores. Mesmo sem muita estrutura, moradores e voluntários se revezam fazendo marmitas para aqueles sem casa e até os outros que estão na cidade para ajudar.

De Vila Velha, na Grande Vitória, um grupo de motociclistas atravessou 174 quilômetros com três carros carregados com botija de gás, água, roupas e até um fogão. Além de suprimentos, as motocicletas levam mantimentos para bairros difíceis de acessar.

Do norte do estado, também partiram jipeiros carregados de doações para os atingidos pela chuva. Os municípios próximos também disponibilizaram servidores para ajudar as cidades mais atingidas.

Celebração da Páscoa em abrigos

Além de ajuda na limpeza e para fazer marmitas que servem de alimento para voluntários e famílias que perderam tudo, nesta sexta-feira (29) teve até doação de cerca de 2 mil ovos de chocolates para crianças das áreas afetadas. Sem ter para onde ir, centenas de famílias vão celebrar a Páscoa em abrigos.

Os abrigos ficam em seis municípios, sendo eles Apiacá (com 133 desabrigados), Mimoso do Sul (100), Bom Jesus do Norte (18) e Alegre (14). Os espaços que recebem essas pessoas ficam em escolas e igrejas das cidades.

Edna Gualandi é servidora pública e trocou os papéis da educação pelas facas e colheres de um ponto de cozinha improvisada em uma escola municipal de Mimoso para fazer marmitas para doar àqueles que não tem nem como comer.

“Eu fico muito feliz. Ao memso tempo que a gente fica muito triste porque nossa cidade foi devastada, mas me sinto feliz porque minha cdasa não treve água e eu estou podendo estar aqui ajudando as pessoas que estão precisando”, disse.

Previsão do tempo

Para este sábado e domingo (31), o Espírito Santo recebeu novo alerta do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) para chuvas intensas. No estado pode chover entre 20 e 30 milímetros por hora ou até 50 mm/dia, com ventos intensos entre 40 e 60 km/h.

Já de acordo com o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), neste sábado, a passagem de um sistema frontal pela costa capixaba causa um aumento da instabilidade no Espírito Santo.

A previsão é de pancadas de chuva com trovoadas à tarde nas regiões Sul, Serrana e na parte sul da Região Noroeste, chegando na Grande Vitória à noite. Nas outras áreas do estado, as nuvens aumentam, mas não deve chover. O vento sopra com moderada intensidade pelo litoral, com possíveis de rajadas entre o Litoral Sul e o metropolitano.

Já o domingo de Páscoa, a presença de um canal de umidade mantém a instabilidade no Espírito Santo. Existe a previsão de chuva em alguns momentos do dia em todas as áreas do estado. A intensidade dos ventos diminui ao longo de todo o litoral.

Vítimas da chuva

Em Mimoso do Sul, uma das mortes confirmadas é a de uma professora de 43 anos. Adair Antônia Fernandes Medeiros era professora de Português e Inglês na cidade e estava em casa com o marido e os dois filhos, um de 6 anos e outro de 3. O marido e o filho menor conseguiram ser resgatados e foram levados para hospitais.

O outro filho de 6 anos, Leonardo Fernandes Medeiros de Souza, foi encontrado ainda na segunda-feira (25) e o corpo foi encaminhado para o DML de Cachoeiro de Itapemirim.

Outra vítima identificada é Gilda Hastenreiter Leite Chalito, 50 anos. Ela morava na Casa de Idosos que foi alagada. Gilda chegou a enviar um áudio para os familiares (ouça abaixo) falando sobre a chuva forte que caía na cidade, e comentou que os cuidadores levariam os hóspedes para a parte de cima da casa se a água entrasse no local.

Em Apiacá, uma das vítimas é a aposentada Clara Tregges, de 87 anos. Ela morreu afogada dentro do quarto. Ela estava acamada porque sofreu um AVC e tinha Alzheimer. A água subiu muito rápido e a família não conseguiu tirá-la de casa a tempo.

O aposentado José Ricardo Queiroz também foi uma das vítimas na cidade. O homem de 64 anos morreu salvando uma tia, também acamada. Quando viu a água tomando conta da rua e entrando na casa da mulher, ele passou mal. Teve um infarto. E por causa do alagamento, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) não conseguiu socorrê-lo.

Atuação do Poder Público

No domingo (25), um dia após a enchente, o governo federal, por meio do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), anunciou que enviou uma equipe prestar apoio a municípios do Sul do Espírito Santo atingidos pelas fortes chuvas.

Entre as medidas imediatas do governo do estado, uma delas foi a disponibilização do Cartão Reconstrução para as pessoas atingidas pelas chuvas no Sul do Espírito Santo. O benefício no valor de R$ 3,5 mil poderá ser usado para aquisição de móveis, eletrodomésticos, roupas, alimentos, material de construção ou qualquer item que a família entenda como prioritário. Veja quem tem direito e como fazer o pedido.

Na terça-feira (26), o governador do Espírito Santo, Renato Casagrande, entregou o relatório inicial com as demandas de infraestrutura urbana, rural e rodoviária, além de habitação, com custo estimado em R$ 743 milhões. De acordo com o documento, será necessária a construção de 560 novas unidades habitacionais, além da reparação de quase 1,7 mil residências, com investimento previsto de R$ 275,3 milhões.

Via | G1 Fotos | Reprodução

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