Depois de alguns anos de estudo e razoável grau de dedicação ao aprendizado/ensino de uma língua estrangeira, o que mais haveria de se esperar de um certo alguém, dear reader? Que ele ou ela fosse (minimamente) fluente, não é mesmo? Estranhamente, entretanto, no Brasil, há décadas, até mesmo quando o assunto é a língua portuguesa, essa obviedade linguística não faz muito sentido, e o tema logo cai no esquecimento.

Destarte, desafiando a lógica da relação de causa e efeito, a impressão que se tem é que, quanto mais o brasileiro comum estuda idiomas estrangeiros, menos ele aprende a língua-alvo, e mais ele se esquece da sua mother tongue! Na verdade, muitos nem fazem questão de sair do círculo da mediocridade e alienação, enquanto que a maioria até demonstra uma ponta de vontade de saber “a língua dos outros”, mas com pouco (ou nenhum) entusiasmo por aulas frequentes ou cursos longos. Noutra extremidade, são raríssimos os casos daqueles que se superaram e, mesmo morando no Brasil e tendo interação limitada com pessoas de outras nacionalidades, conseguiram atingir um nível até certo ponto admirável de proficiência no idioma bretão.

Isso traz à tona um tema relevante para discussão, muito comum entre brasucas: a crença (perigosamente arraigada) de que, “para aprender (inglês, por exemplo) de verdade, é preciso ir para o exterior”. Ora, causa-me estranheza que muita gente ainda acredite nessa balela, apesar de todas as evidências e opções tecnológicas (máquinas e programas/aplicativos disponíveis) que nos rodeiam. E, cá entre nós, dos milhares brasileiros que vão para os English-speaking countries anualmente, for instance, a minoria vai para passear apenas por alguns dias ou semanas. Para a maioria, a realidade costuma se resumir a ter de trabalhar (geralmente em posições subalternas e/ou humilhantes) para se sustentar ou estudar/pesquisar (mas não exatamente em Harvard, Princeton ou Yale) porque conseguiu alguma bolsa.

Em meio à pressão/opressão intelectual e miséria cultural a que nós (latinos e africanos, em especial) estamos atrelados em escala global, só mesmo os bem-aventurados jovens nativos das Américas inglesa, espanhola e portuguesa parecem habitar o eldorado da linguagem e vislumbrar o mundo de uma posição privilegiada na moderna Torre de Babel que nos foi legada. Muitos deles (acham que) são, mesmo que ainda não tenham percebido, os (super-)heróis da contemporaneidade, e consequentemente os alvos preferidos da exagerada ou comedida admiração (ou inveja) alheia, não necessariamente de origem europeia ou nobre, é bom que se diga.

Embora a realidade raramente suplante a ilusão/utopia individual ou coletiva, vale aqui lembrar que o conhecimento (ou a sabedoria) não é tão somente uma dádiva, mas uma conquista diária, dependente da riqueza e da complexidade da língua-alvo, que por sua vez está intimamente ligada às conquistas socioeconômicas dos seus respectivos falantes nativos. É pouco provável, portanto, que a genialidade brote em meio à ignorância, mas também não o é impossível. É de bom alvitre, todavia, evitar o improviso, bem como é prudente lembrar que escamotear os próprios pontos fortes ou fracos, independentemente do propósito, seja ele implícito ou explícito, é flertar com a iminente insatisfação alheia e o fracasso pessoal/social.

Portanto, professores e alunos brasileiros de idiomas (e em especial aqueles que dizem se dedicar à língua inglesa), eis um lembrete: é prioritário convencermos a nós mesmos da nossa capacidade física ou mental de aprender qualquer coisa, mormente idiomas. Ressalte-se, porém, que, uma vez apreendidas as aparentemente complexas regras e exceções de pronúncia, ortografia e significado, tenha a certeza de que fará de tudo (dentro daquilo que é humanamente aceitável) para que o seu poder de comunicação e convencimento não feneça de forma gradual e inquestionável.

Prova cabal de apenas uma das nossas muitas limitações humanas. Não se esqueça disso!

Via | JERRY T. MILL é presidente da Associação Livre de Cultura Anglo-Americana (ALCAA), membro-fundador da ARL (Academia Rondonopolitana de Letras) e associado honorário do Rotary Club de Rondonópolis.
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