Há algumas semanas, a Rede Globo de Televisão tem exibido a campanha intitulada O Brasil Que Eu Quero em meio aos seus telejornais, de manhã, tarde, noite e madrugada. Nela, o telespectador é convidado a enviar para a emissora um vídeo com um depoimento de até 15 segundos focando, por assim dizer, o que cada um de nós deseja para o país do/no futuro. Entretanto, a iniciativa, aparentemente bem-intencionada e original, não foi bem recebida pela população, principalmente por aqueles que habitam o mundo da Internet.
Para muita gente, além das instruções repetitivas e chatas, que inclui a necessidade de colocar o celular na horizontal, se manter a dois passos de distância da câmera e estar na frente de um lugar conhecido num dos mais de cinco mil municípios que temos no Brasil, a campanha tem um quê de revival de tantas outras farsas encabeçadas pelo império da Família Marinho. Por este, e alguns outros motivos, a campanha tem sido considerada fracassada e maçante, deixando muita gente, por assim dizer, com um pé atrás no que se refere à imparcialidade da iniciativa.
A questão é que William Bonner e seus asseclas não contavam com a possibilidade de que vários vídeos fossem feitos em favelas, lixões, lugares públicos caindo aos pedaços, obras inacabadas, estradas esburacadas e locais degradados, em vez dos paraísos que temos por aí. Ou seja, a decisão da Vênus Platinada de “amplificar a voz dos cidadãos”, deu a eles (ou a todos nós) a oportunidade de externar as suas (ou nossas) preocupações, indignações, rancores e irritações com o país corrupto e caricato em que vivemos atualmente. Em vez de mostrar um Brasil bonitinho e organizado, os cidadãos, indignados com tamanha baderna cultural e institucional, optaram por expor as nossas mais óbvias e notórias mazelas sociais.
Enquanto isso, eu fico aqui pensando com os meus botões que, se o mesmo procedimento fosse feito para saber que inglês a população brasileira quer, como seriam os argumentos gravados e enviados. Seriam a favor, contra ou indiferentes quanto à presença e influência da língua no nosso dia a dia? O que você acha?
Eu, em particular, creio que a maioria dos argumentos trilhariam o argumento de que o acesso ao e o investimento no ensino-aprendizado do idioma deveriam ser facilitado e aumentado, respectivamente. Que o ensino/aprendizado da English language deveria ser “mais sério” ou “mais eficaz”, em vez desse faz-de-conta que se vê por aí nas mais diferentes instituições que se atrevem a oferecer aulas/cursos de inglês, às vezes com qualidade bem mais do que duvidosa.
Outra possibilidade seria a indignação de alguns alienados ou revoltados sobre a “excessiva” importância dada a esse idioma estrangeiro, em detrimento de outros idiomas ou até da “nossa” língua portuguesa. Herdeiros diretos do ideário socialista de que tudo o que vem do lado capitalista não é bom ou não presta, esses serumaninhos insistem num assunto não apenas espinhoso, mas (sobre)carregado de ideologias e excessos. E bestialidade.
Por fim, poderíamos ter vídeos mais ponderados destacando a “comodidade” ou “vantagem” de se ter fluência na língua devido ao estágio cultural e tecnológico em que nos encontramos, calcada no efêmero e na virtualização da vida contemporânea.
No meu caso, eu saberia exatamente de que lado eu estaria na hora de gravar o meu vídeo falando sobre o inglês que eu quero para mim, para o meu país e também para o mundo. E você saberia dizer de que lado estaria?
Fonte | Jerry Mill – Mestre em Estudos de Linguagem (UFMT), membro-fundador da Academia Rondonopolitana de Letras (ARL), conselheiro da ALCAA (Associação Livre de Cultura Anglo-Americana) e associado honorário do Rotary Club de Rondonópolis
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