Nessas mais de três décadas que eu venho me dedicando ao estudo, ao ensino e à pesquisa da língua inglesa, eu já presenciei os mais diversos casos e questionamentos que se possa imaginar. Dos mais prosaicos aos mais exigentes em termos de tato e sabedoria ao lidar com algumas peculiaridades do idioma bretão, com alunos e, de vez em quando, com seus pais, familiares ou responsáveis.

Nesses dois primeiros/últimos anos da década de 2020, no entanto, covid-19 à parte, um fato em especial tem chamado a minha atenção, dear reader: o crescente número de alunos jovens e adultos – entre 16 e 30 anos, na sua maioria – que se sentem desmotivados a continuar seus estudos da English language porque, depois de muito dinheiro investido e alguns anos dedicados a ela, eles ainda não se sentem seguros o bastante para participar de rodadas de conversação com outros brasileiros ou, mesmo que de forma remota, para manter um contato constante e duradouro com falantes nativos. Em outras palavras, eles acham que já deviam ser fluentes, ou melhor, fluentíssimos em inglês!

Para eles, uma língua parece ter prazo estabelecido previamente para ser aprendida e o processo de ensino-aprendizagem deve estar completo naquele período que foi idealizado (quase sempre pelas language schools ou tecnocratas de plantão). Ouvindo assim, soa como o melhor dos mundos, mas a realidade nua e crua mostra que muitas variáveis (como níveis de motivação, necessidade e urgência) podem fazer esse sonho ganhar contornos mais sombrios. Na prática, a desejada evolução na capacidade de ouvir, falar, ler e escrever com desenvoltura/naturalidade na língua-alvo parece enfrentar mais obstáculos do que obter conquistas para esses e tantos outros fellow Brazilians espalhados pelo território nacional.

Tudo isso se explica por uma razão simples: falta de vocabulário, aqui entendida como a ausência de um bom repertório de palavras isoladas ou em contextos, formando estruturas compostas ou expressões idiomáticas de diferentes níveis de complexidade e, por conseguinte, de compreensão. Carência essa advinda da falta de treino físico e mental para conseguir tal intento, bem como do baixo/zero contato com livros, jornais ou revistas na English language. Lacuna essa também raramente preenchida de acordo pelo simples fato de persistir o hábito de ouvir músicas/podcasts ou assistir filmes/séries quase sempre de maneira incidental, por exemplo. Pois tais atividades geralmente seguem um viés mais lúdico e menos educacional, quando o que deveria acontecer é justamente o contrário. Ou seja, a maioria desses aprendizes, na prática, coloca o prazer antes do dever. Trocando em miúdos: não estão num estágio de melhor proficiência/fluência porque, costumeira e tradicionalmente, não sabem usar os recursos midiáticos atuais e as novas tecnologias de forma perspicaz e adequada.

Um exemplo clássico que eu uso é o fato de o aprendiz brasileiro do idioma-alvo ouvir músicas em inglês e ter dificuldade de memorizar o seu título, o nome do artista que gravou a canção e algumas das suas linhas/estrofes. Por outro lado, quando isso (milagrosamente?) acontece, a pessoa prefere não cantar a música porque ela própria tem (abre aspas!) “voz feia” ou lhe falta ritmo, clima, traquejo, talento, etc. Como se fosse sua obrigação apresentar-se em público com o mise-en-scène de um profissional…

Assim sendo, o que eu posso me atrever a dizer é que, para ser fluente, fluentíssimo, é preciso muita prática e persistência para então, um dia, falar/escrever, se expor com confiança. Lembre-se: não importa a língua, é necessário ter clareza quanto ao que foi, é ou será dito/escrito. Se a pessoa não for capaz de se expressar minimamente bem no seu próprio idioma, é muito mais do que provável que isso também não poderá ser feito num segundo ou eventual terceiro idioma. Afinal, infelizmente, muitas pessoas ainda não se deram conta de que nem tudo o que se quer (ainda não) pode ser encontrado nas prateleiras das lojas e dos supermercados, estejam elas no mundo real ou na Internetland.

P.S.: Por outro lado, há um pequeno séquito que tem insistido na utopia de ficar fluentíssimo na língua inglesa em apenas três/seis meses ou (“no máximo”) um ano. Não que isso seja impossível. Trata-se apenas de algo improvável de acontecer, considerando-se as condições em que essas pessoas dizem estar “estudando” ou “aprendendo” o idioma.

Via | JERRY T. MILL é presidente da Associação Livre de Cultura Anglo-Americana (ALCAA), membro-fundador da ARL (Academia Rondonopolitana de Letras) e associado honorário do Rotary Club de Rondonópolis.
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