Antes da suspensão das aulas presenciais por causa da pandemia do coronavírus, a professora Magda Rodrigues, de Língua Portuguesa, do Colégio Municipal José Botelho Athayde, em Volta Redonda (RJ), trabalhou a sala de aula invertida com a turma do 6º ano. Os alunos precisavam pesquisar em casa sobre a covid-19, anotar as informações encontradas, suas dúvidas, explicações e levar para aula. A partir disso, a educadora levou os estudantes a criarem no aplicativo Canva cartazes informativos em relação ao vírus. O tempo que, tradicionalmente seria gasto com explicações em sala de aula, foi usado para atividades, troca de informações e esclarecimento de pontos que não ficaram claros na pesquisa realizada em casa.

Quando se fala sobre ensino híbrido, há muitas dúvidas sobre os materiais e ferramentas que podem ser usada pelos professores para aplicação de algum modelo em sala de aula. Antes de conhecer e se inspirar com casos reais de professores de escolas públicas, é importante entender que a “tecnologia por si só não vai potencializar, por exemplo, a personalização do ensino”, explica Leandro Holanda, diretor da Tríade Educacional.  “As ferramentas facilitam esse processo, mas é preciso fazer que esse conteúdo [apresentado com o apoio da tecnologia] vire conhecimento”.

O professor doutor do departamento de Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e especialista em ensino híbrido, Adolfo Tanzi Neto explica que é necessário que o design pedagógico da aula tenha o objetivo de descentralizar o papel do professor e dar mais autonomia para o estudante. “Só assim as ferramentas vão propiciar esse ambiente que potencializa a aprendizagem”, afirma.

Recursos digitais para usar no ensino híbrido

Para inverter a sala de aula da professora Magda e realizar uma atividade de criação de cartazes digitais, ela pediu para que os alunos baixassem o aplicativo do Canva Free em seus celulares. “A turma tinha bastante problema com internet. Por isso me programei com a antecedência para garantir que daria tempo de coletarem as informações quando necessário. É um percurso longo e árduo com a falta de recursos, mas é possível e, no final, o resultado é muito positivo”, diz. A proposta de construção dos cartazes foi em grupo para trabalhar a colaboração.

A coleta de informações sobre a Covid-19 antes da aula foi fundamental para modificar a prática presencial dos estudantes, que puderam comparar os dados trazidos por cada um com os dos colegas, complementar as informações e produzir os cartazes solicitados pela professora. Cabe ressaltar que os alunos que não tinham acesso em casa a computadores ou internet puderam pesquisar em revistas e jornais tais informações, tornando possível que todos realizassem esta etapa da tarefa.

A escolha do uso do aplicativo, segundo Magda, foi para dar liberdade aos alunos para criar com diferentes elementos digitais com as informações obtidas em casa. Um recurso que tem algumas funcionalidades parecidas com o Canva é o Padlet. “O professor pode dividir o espaço de trabalho [tela do aplicativo] em colunas e cada grupo pode trabalhar ali a apresentação de algo. Tem possibilidade de colocar vídeo, gravação de áudio, link para o YouTube”, explica Adolfo. Por se tratar de um aplicativo que mostra as alterações sendo feitas em tempo real, o docente consegue acompanhar todo o processo de registro da atividade, o que colabora para que ele professor entenda o que os alunos estão fazendo e como estão construindo seu conhecimento.

Magda também já usou bastante o “Clickers” (é possível encontrar várias versões gratuitas desse recurso na internet), que permite montar testes de múltipla escolha. Após o estudo feito pelos alunos em casa sobre determinado assunto, ela fazia a aplicação de testes rápidos, com perguntas que deveriam ser respondidas por toda a sala simultaneamente em seus dispositivos móveis. “O objetivo era que as respostas trouxessem resultados diretos sobre a aprendizagem”, explica. A computação das respostas era exibida logo na sequência para comentários da turma e da professora, que reforçava conceitos e explicava eventuais confusões que ainda houvessem sobre o tema.

Nas aulas de Matemática do professor Fernando Leonardi de Moraes, da Escola Estadual Benedito Lázaro de Campo, em Itu (SP), o ensino híbrido aparece pelo menos uma vez no bimestre por três modelos: rotação por estações, sala de aula invertida e laboratório rotacional. Na primeira opção, Fernando conta que trabalha com 4 estações. “Uma fica na sala de aula com atividades da apostila; outra vai ao laboratório de informática fazer pesquisas que serão usadas em aulas futuras sobre o mesmo tema; uma terceira estação é um espaço em que os alunos precisam gravar uma videoaula explicando os conceitos estudados anteriormente; e uma última traz desafios para serem resolvidos pelos estudantes que coletam dados para eu analisar posteriormente”, explica o educador.

Na sala de aula invertida, Fernando usa o Formulário do Google para reunir os documentos que serão estudados pelos alunos em casa. A plataforma permite a junção de diferentes materiais como textos para leitura, vídeos sobre o tema em discussão e até mesmo atividades para entender se os estudantes conseguem resolver a partir de suas leituras. “Por fim, peço para eles gravem um vídeo curto falando a respeito daquilo que eles estudaram em casa e fazemos essa socialização dos vídeos com os demais em sala”, explica. “A dica é não ter medo do novo e de aprender”.

O que você precisa saber sobre ensino híbrido

O ensino híbrido é composto por modelos de aula que integram atividades presenciais e on-line, no qual os recursos digitais são utilizados para coletar dados e informações que serão analisadas pelo professor com o objetivo de personalizar o ensino. Os modelos híbridos permitem ter um olhar mais próximo do processo de aprendizagem do aluno do que em uma aula expositiva. Um dos modelos mais aplicáveis quando falamos em ensino híbrido é a sala de aula invertida.

Pouca tecnologia? Como fazer ensino híbrido com recursos off-line

Engana-se quem pensa que não existe ensino híbrido sem internet ou com poucos recursos digitais. Para captar as percepções dos alunos e o entendimento deles, por exemplo, o professor Fernando utiliza o celular para gravação de vídeos, já que não necessita de internet para execução da tarefa.

O modelo de sala de aula invertida, por exemplo, possibilita que o professor prepare atividades off-line e entregue aos seus alunos como lição de casa. “Dá para fazer um trabalho com propostas impressas em papel: o aluno leva uma lista de atividades para casa e na escola faz uma síntese do que ele fez em casa, por exemplo, com os conhecimentos avançados”, explica Leandro. No entanto, o especialista aponta que os recursos off-line acabam perdendo um pouco a velocidade de obtenção dos dados para personalização do ensino, já que é preciso analisar as atividades individualmente dos alunos e compilar as informações para análise.

Adolfo sugere que os professores que têm uma realidade mais escassa de recursos digitais foquem no trabalho de ensino por meio de projetos. “Os alunos podem ser convidados a fazer pesquisas em livros, experiências com materiais em casa, investigação no bairro, todas essas tarefas não necessariamente estão ligadas a tecnologia”, explica.

Independente do recurso a ser utilizado, é necessário que cada escola entenda as possibilidades cabíveis para si. “O ensino híbrido não é um manual a ser seguido. As práticas podem ajudar o professor a se inspirar, mas cada escola precisa entender o que tem disponível de recurso e espaço e a partir daí criar o que funciona para sua realidade”, sugere.

Via | Nova Escola

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