Pacientes não contaram com a assistência devida do Estado e tiveram que bancar com recursos próprios a correção nos problemas enfrentados nas cirurgias
O que era apenas um temor foi confirmado e, pelo visto, possivelmente ocorreram vários casos de erro médico nas cirurgias de retirada de cataratas realizadas pelo Governo do Estado durante a passagem da Caravana da Transformação por Rondonópolis. Os problemas vieram à tona após o Jornal A TRIBUNA veicular notícia de um paciente que teve que refazer a cirurgia em um dos olhos sob risco de perder a visão. Pacientes não contaram com a assistência devida do Estado e tiveram que bancar com recursos próprios a correção nos problemas enfrentados nas cirurgias.

De acordo com o médico oftalmologista Marcelo da Costa Miranda, que atendeu e acompanha vários casos semelhantes, há alguns casos que podem ser claramente diagnosticados como erro do médico na cirurgia. “Nós detectamos pacientes com queixas de dor e falta de visão. Como a cirurgia de catarata é uma cirurgia que evoluiu muito, ela hoje tem um tempo de recuperação visual muito rápido. Então, os pacientes que não recuperam rapidamente essa visão, é porque houve alguma complicação na cirurgia”, afirmou.

Formado há 30 anos pela Faculdade Evangélica de Medicina do Paraná, especialista em cirurgias de retina e cataratas, atuando na área há 25 anos em Rondonópolis, o médico esclareceu à reportagem que é normal o surgimento de problemas no pós-operatório, mas é preciso diferenciar o que é uma intercorrência desse tipo das complicações que o cirurgião consegue resolver e daquelas que o cirurgião ignora e se torna uma complicação muito maior, como o caso dos pacientes atendidos pelo especialista.

Ele afirma já tratar de cinco pacientes que fizeram cirurgias de catarata na Caravana da Transformação e que as lentes que são colocadas no interior do globo ocular se deslocaram para o interior do mesmo, ou por falta de suporte natural do olho ou pelo uso de lentes inadequadas (isso considerando pacientes que o procuraram). “Houve casos em que não foi retirada totalmente a catarata e foi realizado o implante da lente mesmo assim, e a lente luxou para dentro do olho. São complicações graves que geram intensa reação inflamatória dentro do olho”, confirmou Marcelo Miranda.

“Há também outros casos de pacientes que os fragmentos da catarata não foram retirados e luxaram para dentro do olho, gerando intensa inflamação. Há outros casos semelhantes que ainda estamos examinando, mas que também ficaram vestígios da catarata nos olhos dos pacientes”, completou.

Para ele, alguns casos foram imperícia do cirurgião e falta de condições para resolver imediatamente as complicações. “Todo médico tem que ter suporte e afinidade com a cirurgia para resolver complicações. Isso faz a coisa fluir com muito mais tranquilidade”.

Além disso, vale observar que há informações que outros pacientes passaram pelo mutirão, tiveram problemas nas cirurgias e buscaram atendimento no Hospital Regional, diante da falta de condições financeiras.

RISCO CIRÚRGICO

Uma outra situação levantada pelo especialista é a falta de exigência dos exames pré-operatórios, chamados risco cirúrgico, dos pacientes que foram submetidos a cirurgias de retirada de catarata. “Todos os procedimentos intraoculares, dentro do olho, usando qualquer tipo de sedação, requerem uma avaliação clínica pré-operatória desse paciente, como exames de sangue, eletrocardiograma, para detectar possíveis problemas cardíacos, em alguns casos mais específicos raio-X do pulmão, por exemplo, para que a gente previna algumas doenças que podem atrapalhar a cirurgia e para que o paciente não corra risco de vida. Não se faz nenhum procedimento cirúrgico sem esses cuidados”, afiançou Marcelo Miranda.
Ele afirma que nenhum dos pacientes oriundos da Caravana que atendeu e refez as cirurgias oftalmológicas dos mesmos não tinham feito tais exames. “Todos alegaram que na primeira cirurgia não lhes foi solicitado nada”.

FALTA DE ESTRUTURA

Ainda de acordo com Marcelo Miranda, a estrutura montada no estacionamento de um estádio não está de acordo com o que preconiza o Conselho Regional de Medicina (CRM) ou qualquer outro Conselho de profissionais de saúde. “Eu, pessoalmente, não conheço e estrutura deles, mas todos os nossos conselhos profissionais preconizam a realização de cirurgias de catarata em ambiente hospitalar, o que quer dizer: um ambiente com condições de você tratar o paciente e se houver alguma intercorrência você ter condições de resolver essa intercorrência na hora. Lá, fizeram as cirurgias dentro de uma carreta e, depois, toda a estrutura e profissionais foram embora, deixando os pacientes sem assistência nenhuma. Isso é grave”, afirmou o médico oftalmologista.

Ele finaliza aconselhando a todos os pacientes que fizeram as tais cirurgias, em caso de sentirem dor ou algum incômodo no local da cirurgia, que procurem o mais rapidamente ajuda médica, pois ainda existe o risco de alguma intercorrência tardia e essas pessoas correm ainda o risco de perder a visão em definitivo.

Fonte | A Tribuna

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