A começar pelo onipresente ‘alphabet’, uma clara junção das palavras ‘alpha’ e ‘beta’ (as duas primeiras letras do alfabeto grego), há um número aparentemente incontável de vocábulos de origem grega ou latina (greco-latina também, às vezes) na língua inglesa, bem como em muitos outros idiomas, dentre os quais podemos destacar o francês, o italiano, o espanhol e o português, claro!

Daí a tão propalada (relativa) “facilidade” com que muitas English words podem ser entendidas, ou traduzidas, sem o uso de um dicionário, até mesmo por aqueles que estão apenas se iniciando no geralmente surpreendente campo do ensino ou aprendizado da lingua franca do momento. Alguns exemplos: magnetic, mechanism, missionary, monarchy e museum.

Para entender como isso aconteceu, é preciso recorrer à história. Mais precisamente ao período em que os soldados romanos, cinco décadas antes de Cristo, começaram a ocupar a região onde hoje estão localizados o Reino Unido, a Grã-Bretanha e a Inglaterra. Somente no ano 410 depois de Cristo é que o Império Romano decide deixar a então região da Britannia, deixando como legado diversas palavras latinas, que podiam ser ouvidas nos contextos econômicos, políticos e sociais das tribos que habitavam aquele território naquela época. Ou seja, por mais de três séculos, o latim foi a língua do poder no futuro território e império britânico.

Na verdade, além da evidente vertente linguística, a influência da Grécia e de Roma (atualmente a capital da República Italiana, ou Itália, desde 1871) se deu também na questão religiosa, através do cristianismo, em especial no ensino oferecido nos mosteiros (feito em latim).  Aliás, somente no século 14, mais exatamente em 1348, é que as escolas das redondezas passam a poder usar o inglês como meio de instrução.

Muito antes disso, porém, no século 5, com a saída das tropas romanas da região, começam as invasões dos jutos, frísios/frisões, anglos e saxões, sendo que os dialetos germânicos (impregnados de latinismos) desses dois últimos povos é que efetivamente dão origem à língua inglesa, praticamente aniquilando as contribuições dos celtas. Já no século 8, com os ataques dos vikings à Inglaterra feudal, novas palavras e expressões são adicionadas ao idioma bretão, fenômeno esse muito comum inclusive nos dias de hoje, com a globalização e a Internet.

O fato é que, ao longo do seu percurso histórico, nos períodos que abrangem o Inglês Antigo (500-1100 d.C.), Inglês Médio (1100-1500 d.C.) e o Inglês Moderno (1500 d.C. até os dias atuais), o idioma bretão sofreu a influência de vários povos e de diversas línguas, mas nenhuma delas deixou tamanha contribuição lexical quanto o latim e o grego, cujos radicais e expressões estão presentes no nosso dia a dia ainda hoje. Para se ter uma ideia, algumas estimativas de vários estudos feitos pelo mundo afora dão conta que cerca de 60% das palavras do léxico da língua inglesa vem do latim e do grego.

Sabendo-se que, teoricamente, um adulto comum, fluente no idioma bretão, saiba cerca de 40.000 palavras, de forma ativa ou passiva, isso quer dizer que 24.000 palavras do seu vocabulário tem raiz greco-latina. Essas palavras são geralmente chamadas de transparentes ou cognatas (se comparadas a outros idiomas, como o português) e são facilmente identificadas/encontradas em praticamente todos os gêneros textuais, contrariando a crença popular de que o latim, em especial, é uma língua totalmente morta.

Alguns bons exemplos que me ocorrem agora são os prefixos anti- (contra/against ou/or oposto/opposite), bio (vida/life) e chron (tempo/time), bem como os sufixos -dict (dizer/to say, como em ‘contradict’), -gress (caminhar/to walk, como em ‘progress’) e -port (carregar/to carry, como em ‘export’). Além disso, há o caso de plurais tipicamente greco-latinos como datum/data, stimulus/stimuli e virus/viruses. Sem contar abreviações ou expressões como i.e. (id est/that is/ou seja), e.g. (exempli gratia/for example/por exemplo) e etc. (et cetera/and the rest/e outras coisas), bem como carpe diem (seize the day/aproveite o dia) e a.m./p.m (ante meridiem/post meridiem), só para citar algumas das muitas que existem.

Como se percebe, ao contrário do que muita gente diz ou pensa, o latim não é verdadeiramente uma língua morta. Ele ainda é estudado e utilizado por um grupo reduzido de pessoas no mundo moderno, como religiosos, cientistas e curiosos. Além disso, como já deu para perceber, dear reader, ele se transmutou e de alguma forma continua presente no nosso dia a dia. Diferentemente do grego, língua oficial da Grécia e do Chipre, falado por alguns milhões de pessoas, cuja versão atual lembra muito o idioma que era falado nos tempos de Tales de Mileto (624 a.C.-558 a.C.), Sócrates (470 a.C.-399 a.C.), Platão (427 a.C.-347 a.C.) e Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), apesar das mudanças fonéticas e semânticas que ele sofreu ao longo dos séculos.

Via |  JERRY T. MILL é presidente da Associação Livre de Cultura Anglo-Americana (ALCAA), membro-fundador da ARL (Academia Rondonopolitana de Letras) e associado honorário do Rotary Club de Rondonópolis.
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