A maior crise sanitária de nosso tempo, aprofundou, antecipou e inverteu uma série de lógicas e tendências sociais, econômicas e ambientais que impactaram a vida de todos. No Brasil, um dos principais reflexos foi a veloz precarização do trabalho e aumento da informalidade, que atualmente está em 40,6%, atingindo 38,6 milhões de trabalhadores, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, de janeiro deste ano, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Na outra ponta deste panorama, setores como a indústria apontam a escassez de mão de obra qualificada como um dos impeditivos para seguir inovando e crescendo, conforme aponta pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Esse cenário também atingiu a educação em todos os níveis, mas com a perda de renda das famílias, adolescentes passaram a trabalhar de forma precoce e sem o preparo adequado, além de abandonarem os estudos — realidade de cerca de 240 mil crianças entre 6 e 14 anos segundo relatório da organização Todos Pela Educação, um acréscimo de 171% em relação ao mesmo período de 2019, antes da pandemia de Covid-19.

Diante desses e vários outros números que aqui poderiam ser elencados, a educação assume um papel muito importante para contribuir com a reversão do quadro de vulnerabilidade da população e com a retomada e crescimento da economia, especialmente a educação profissional de qualidade, que considere a também a cidadania e a atitude empreendedora. Num mundo imprevisível e em constante transformação, a força trabalhadora precisa ser capaz de identificar e resolver problemas e desafios, questionar verdades absolutas e antecipar ações, de maneira a contribuir com a promoção de mudanças na sociedade.

A escola pode e deve ser o lugar para despertar esse senso crítico, comprometendo-se não apenas com a transmissão de informações, conteúdos e procedimentos, mas desenvolvendo competências para a vida e para o trabalho, que permita que os estudantes atuem no mundo complexo com autonomia, assumindo compromisso com a transformação de realidades.

Parece que estamos falando de ESG, né? É isso mesmo!

O termo ESG (Environmental, Social and Governance) — ou Ambiental, Social e Governança, em português –, cada vez mais popular no âmbito corporativo trata parâmetros para avaliação das empresas em relação a práticas comprometidas com o desenvolvimento sustentável de modo a explicitar seu compromisso social. Acontece que essa sigla congrega conceitos que sempre estiveram presentes no universo educacional.

Para além dos parâmetros e práticas de gestão, que têm assumido diferentes configurações nos últimos tempos, o campo educacional sempre assumiu o compromisso social e com o desenvolvimento sustentável como parte fundamental.

A formação de profissionais que atendam a demanda de qualificação atual, mas também antecipe as tendências do mercado de trabalho e prepare as pessoas para a incerteza e complexidade que ainda não podemos prever é o desafio das instituições da educação profissional atual.

Na educação e formação para o trabalho, as práticas relacionadas ao ESG podem inspirar uma gestão alinhada a estes princípios, pautando-se neles para definição de questões como os critérios de seleção de funcionários, a relação com os resíduos gerados, por exemplo; e incorporando de modo intencional e explícito estes temas no processo formativo de maneira transversal, de modo que os futuros profissionais acessem o mundo do trabalho comprometidos com esses valores.

E como preparar profissionais para o futuro do trabalho que ainda não chegou?

Voltando à questão da aceleração de tendências por conta da pandemia, o processo de automatização disparou nos últimos dois anos. Dados compilados pela Association for Advancing Automation (Associação para Automação Avançada) revelam que na América do Norte as empresas bateram o recorde em investimentos em robôs. O aporte total é de mais de US$ 2 bilhões (cerca de R$ 10,5 bilhões) em aproximadamente 40 mil robôs no ano passado. Trata-se de um aumento de 28% sobre 2020, uma vez que as companhias se viram forçadas a antecipar suas automações para lidar com a demanda recorde, em contraponto à escassez de mão de obra impactada pela doença.

Processos que levariam anos para se sedimentar se apresentam, por conta da automatização, se apresentam de modo mais imediato e tem havido uma intensa reconfiguração dos postos de trabalho, com desaparecimento, criação e transformação dos que permanecem, exigindo que novas capacidades e fortalecendo a importância da qualificação e requalificação constantes.

Vivemos em um tempo de intensa transformação social, onde a velocidade das mudanças e avanços tecnológicos afetam intensamente todos os aspectos de nossas vidas, com especial destaque para a natureza do trabalho. Isso exige que as instituições educativas reflitam constantemente sobre sua proposta educacional, de modo a continuar realizando sua função social, formando profissionais e cidadãos, e apoiando a construção de projetos de vida e o desenvolvimento produtivo e econômico.

Torna-se fundamental assim, preparar, reciclar ou profissionalizar cidadãos que ocuparão postos que ainda serão criados, prontos para resolver novas demandas e desafios impostos pelo mundo e com carreiras mais sustentáveis, independentemente das crises e reconfigurações que se apresentarem adiante.

Via | Ana Kuller é especialista em educação do Senac São Paulo.

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