Às vésperas da virada para o século 21, Vitória da Riva, considerada a primeira conservacionista de Alta Floresta, conversava com Sérgio Guimarães, um dos fundadores do Instituto Centro de Vida (ICV).

Há pouco, um novo projeto de combate às queimadas impedira o fechar das portas da instituição, que voltava a sua atenção para região amazônica do estado, distante quase mil quilômetros de onde foi fundada, em Cuiabá.

A mulher buscava convencê-lo de que o escritório do ICV para atuação na Amazônia mato-grossense deveria ser ali, em Alta Floresta. Não em Guarantã do Norte, como inicialmente planejado pela equipe.
Quem conta a história é Laurent Micol, ex-diretor da instituição.

Guarantã tinha um número maior de assentamentos e estava mais próximo a BR-163. “Pensava-se em ir para lá, mas o avião pousava aqui”, conta.

Vinte anos antes, não existia nem avião nem hotel, propriedade de Vitória onde Sérgio estava hospedado e espécie de oásis florestal na cidade em ritmo acelerado de urbanização.

O que compreendia a área do principal centro urbano da região era só o que indicava seu segundo nome: floresta.

No Sul, famílias agricultoras de diferentes localidades recebiam a mesma notícia. Às vezes, de um tio caminhoneiro que havia viajado milhares de quilômetros para o Norte do país; às vezes, de outro parente distante que já havia, há tempos, tentado sorte diferente em estados como Rondônia.

O comunicado era: o trajeto era difícil, mas os preços eram bons. Era possível ter a própria terra, finalmente.

De caminhões entulhados, conhecidos como pau de arara, desciam as crianças, mulheres, homens jovens e idosos. Variava: em alguns casos vinham de uma vez só três gerações inteiras de uma família, em outros eram viajantes solitários.

Era esse o cenário ao fim da década de 1970 até meados da década de 1980 na região norte de Mato Grosso.

Chegavam cansados e fracos depois de meses de viagem reféns de trajetos improvisados, em estradas recém abertas em meio às florestas cujos efeitos da chuva na terra, na forma dos atoleiros, tornavam a chegada ainda mais demorada.

Iam atrás de um pedacinho de terra para seguir fazendo o que aprenderam desde cedo. Vinham principalmente do Paraná, estado cujas geadas, a implantação de uma grande hidrelétrica e as relações com os donos da terra os mandavam para longe.

Quando se vive mal, arrisca-se fácil. A terra desconhecida trazia oportunidade de uma vida boa na roça, independente de outros. Mas deixava todo o resto para trás.

Não tinha estrada, energia elétrica nem telefone. De mata densa, com excesso de mosquito e malária, a floresta cuja diversidade e abundância era facilmente visível nas espécies de fauna e flora eram referenciadas, fora dela, como “vazio demográfico”.

A expressão era utilizada pelo governo federal, que à época, tinha interesse em alocar a mão de obra familiar excedente do Sul com uma política regada de benefícios fiscais a empresas de colonização da região.

Uma delas, a Indeco (Integração, Desenvolvimento e Colonização LTDA), empresa do paulista e desbravador Ariosto da Riva, que adquiriu cerca de 400 mil hectares na região, área que mais tarde se tornaria Alta Floresta, Paranaíta e Apiacás.

Ariosto era o pai de Vitória.

Desde a década de 1970, as expectativas e apostas das famílias imigrantes flutuavam de produto em produto, de acordo com as ondas do mercado e da legislação ambiental. Café, depois o ouro, depois a madeira. Depois ainda, a pecuária e o cultivo de grãos, atualmente a base econômica da região.

Os novos moradores dessa parte da floresta amazônica trabalhavam do único jeito que sabiam ser possível para sobreviver às intempéries do bioma. “Abriam” as áreas, com a queimada e derrubada das árvores para cultivar, abrir pastagens e extrair madeira.

Alta Floresta iniciava um processo de intensa degradação ambiental que a faria figurar como um dos municípios com maior índice de desmatamento em toda a Amazônia brasileira.

CONSERVAÇÃO AMBIENTAL EM PAUTA

O município tornou-se o principal polo urbano da região após um boom de crescimento no período do garimpo, década de 1980.

Hoje, o pequeno avião que trazia os mantimentos para os caçadores de ouro repousa numa praça como marco histórico da cidade. O aeroporto segue recebendo os visitantes longínquos.

Como Sérgio, que se convenceu em uma das visitas de que a cidade poderia ser um centro regional para projetos de conservação dos ecossistemas amazônicos na região.

Nas conversas com Vitória e amigos, traçavam um planejamento de proteção em áreas estratégicas para contenção do avanço do desmatamento ilegal.

Laurent, um francês à época genro de Vitória e cujo interesse na área ambiental começara a despontar nessa mesma época, ouviu com atenção a Sérgio, a quem foi prontamente apresentado quando chegou em Alta Floresta (e na Amazônia brasileira) pela primeira vez. Ofereceu sua ajuda.

“Haveria de se criar uma barreira ao norte a oeste desse arco para barrar o avanço do desmatamento. Nos lugares que já estava muito avançado, trabalhar projetos de desenvolvimento sustentável”, detalha o plano.

Abriram o mapa e começaram a identificar onde havia “buracos”, ou seja, falta de áreas protegidas nas regiões definidas como estratégicas.

Foi a semente que viria a culminar no Mosaico da Amazônia Meridional, conjunto de áreas protegidas, tempos depois.

Pouco depois dos debates entre três, uma fundação demonstrou interesse em financiar um projeto de maior prazo dos trabalhos propostos pelo ICV.

Manejo sustentável de recursos naturais, turismo ecológico, educação ambiental, todas as atividades desenvolvidas a partir de um local que nunca saiu do papel: o Centro de Desenvolvimento Sustentável de Alta Floresta.

Um pré-contrato fora assinado e Laurent, que seria o coordenador do programa, se mudou para Alta Floresta. Em 2000, o escritório de Alta Floresta foi inaugurado.

Mas depois de meses de conversa, descobriram que a fundação não possuía os recursos prometidos e tudo foi engavetado. “Não recebemos nenhum centavo”, lembra Laurent.

Não desanimaram, focaram a atenção em outras ações em curso.

Como o Programa Fogo – Emergência Crônica, que tornara possível a vinda do ICV para Alta Floresta e cujos resultados ainda vamos abordar nessa série especial de #ICV30anos.

Na mesma época, o ICV se envolveu em um projeto de educação ambiental no entorno de dois parques recentemente criados como condições do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para empréstimo a obras de infraestrutura em curso na Amazônia.

Seguia sua forte relação com unidades de conservação, conexão que também falaremos com mais profundidade nessa série.

AGRO E AMBIENTAL NA MESMA MESA

No âmbito do Programa Fogo, o instituto organizou um evento em Alta Floresta que marcou a história socioambiental de Mato Grosso.

“Para contrapor com a Expoagro, fizemos a Expoambiente”, relembra Sérgio.

“Pensamos em fazer uma demonstração de iniciativas de desenvolvimento sustentável na Amazônia. Não em São Paulo, na própria Amazônia, voltada às pessoas daqui para verem alternativas de modelo de desenvolvimento”, complementa Laurent.

A segunda edição, em 2003, deu a prova concreta da missão da instituição: propor diálogo entre visões, à primeira vista, completamente antagônicas.

Reuniu no mesmo espaço, conversa e foto o então governador de Mato Grosso, o fazendeiro Blairo Maggi, e Marina Silva, então ministra do meio ambiente.

As conversas visavam alinhar o desenvolvimento econômico da região, dependente da produção agropecuária e exploração madeireira, e o manejo sustentável dos recursos do bioma.

“Chegamos nessa visão de que não é necessário desmatar mais para crescer, mas sim aproveitar melhor as áreas que já foram abertas. De que não é necessário extinguir a atividade madeireira, mas encontrar uma forma de torná-la sustentável e garantir renda futura”, avalia Laurent.

No evento, os participantes assinaram e lançaram a Carta para Alta Floresta, onde tudo isso era pautado como agenda de trabalho para os próximos anos na região.

“Foi onde marcou-se o fortalecimento da abordagem que o ICV tem. Isso abriu para a instituição, no futuro, conversar com setores que em outros contextos não ouviriam os movimentos ambientalistas”, afirma Laurent.

O ICV encabeçava a missão, em campo e na prática, de mostrar de que a floresta em pé poderia, agora, ser uma ferramenta aliada na busca daquelas famílias todas por maior qualidade de vida.

Via | ICV

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