“Não adianta nem tentar me esquecer. Durante muito tempo em sua vida, eu vou viver.”

In Detalhes, by Roberto Carlos

Antes de qualquer outra coisa, dear reader, quero deixar claro que a sonora expressão acima, no título, é um evidente pleonasmo vicioso que, graças ao poder de influência da mídia, e em especial dos programas humorísticos, entrou e ficou no léxico da língua portuguesa do Brasil, embora ele possa ser facilmente evitado – assim como os recorrentes “entrar para dentro” e “chutar com os pés”, só para citar alguns casos existentes. À guisa de esclarecimento, em seus lugares poderiam muito bem ser utilizados “em detalhes”, “entrar” e “chutar” apenas, respectivamente.

A intenção aqui, pois, é dar ênfase à ênfase. É “chover no molhado”, essa maravilhosa expressão popular brasileira que indica o ato ou a intenção de repetir o que já foi dito ou já é do conhecimento público. Ou seja, não há nenhuma informação nova a acrescentar. Nenhuma novidade a oferecer. O que se traz é o mesmo do mesmo. Foram trocados seis por meia dúzia. E isso é o que acontece toda vez que eu falo, você fala e tantas outras pessoas falam sobre a importância (e a presença) da língua inglesa na vida pessoal e profissional dos bons cidadãos deste século 21, das mais diferentes idades, em qualquer lugar do mundo.

Dito isto, vamos aos fatos! Pois English words têm sido usadas repetidamente com tamanha naturalidade e espontaneidade em solo brasileiro que, até certo ponto, surpreende os mais incautos. Como ocorre na simples menção de palavras hoje consideradas “essenciais”, caso de internet, game e delivery, ou construções do quilate de banana split, blu-ray e fake news. Como acontece quando a dona de casa revela que a sua geladeira é frost free, o empresário diz preferir beber leite UHT (ultra high temperature) no seu café da manhã e o morador de rua nega peremptoriamente ser usuário de crack e muito menos de ecstasy.

Em suma, a língua inglesa se faz mais presente no nosso cotidiano do que supõe a nossa vã filosofia, inclusive em muitas das coisas que comemos (bacon), bebemos (Keep Cooler), vestimos (jeans) e usamos (óculos Ray-Ban, que vem da expressão ray banner). Além disso, a febre das lives e a insistente citação do QR (quick response) code nos programas veiculados pelas emissoras de TV ou por canais do YouTube, por exemplo, são outra evidência dessa nuvem de palavras da língua inglesa que paira sobre as nossas cabeças e constante e metodicamente rega os nossos cérebros.

Palavras essas que aparecem também nos nomes de multinacionais que operam no país (como a Amazon, a Microsoft e a Netflix), nos seus produtos (Kindle, Windows e sitcoms, respectivamente) e em serviços diversos, como wi-fi, streaming e download/upload. Out of the blue, elas saltam aos olhos quando vemos, lemos ou ouvimos gay, playboy, deejay/DJ e, mais recentemente, digital influencer, sem contar aquelas words que estão nos carros (HiLux = high luxury), nas motos (tuning) e até nos ares-condicionados (mais especificamente nas BTUs = British Thermal Units). English is everywhere, dearest!

Como, aliás, ressalte-se, aparece em profusão num texto acadêmico (de 19 páginas) sobre possíveis mudanças na educação com metodologias ativas (de autoria do professor doutor José Morán, da USP), enviado para mim recentemente por uma amiga da longínqua Confresa, no extremo norte do estado, doutoranda em Educação pela UFG. Material este que faz parte de um curso online de formação continuada para professores da rede estadual de ensino, oferecido pelo Cefapro (Centro de Formação e Atualização dos Profissionais da Educação de Mato Grosso). Nele, aparecem mais de duas dezenas de palavras ou expressões na língua inglesa, caso de blended e team-base learning.

Como se vê, todos os exemplos citados acima vêm corroborar a ideia de que, sim, sabemos dezenas, centenas, milhares até, de palavras da língua inglesa. O que uma enorme parcela de nós, fellow Brazilians, não sabe é como pronunciá-las e usá-las adequadamente nos mais diversos contextos frasais e situacionais, mesmo depois de anos de estudo/aprendizado do idioma bretão. O que, para muitos, é motivo de enorme descaso, decepção, pânico ou, para uma minoria, felizmente, ódio. Para mim, um estudioso do assunto há décadas, isso quase também é mais um detalhe, como, a propósito, está na letra daquela famosa canção do Rei Roberto Carlos, que, na sua versão para a língua inglesa, acabou virando You Will Remember Me (ou seja, ‘você vai lembrar de mim’).

Fonte | Jerry Mill -Mestre em Estudos de Linguagem (UFMT), presidente da Associação Livre de Cultura Anglo-Americana (ALCAA), membro-fundador da ARL (Academia Rondonopolitana de Letras), associado honorário do Rotary Club de Rondonópolis e autor do livro Inglês de Fachada

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