Diferentemente do que o nome possa sugerir, não se trata de pensar positivo e ignorar fatores ruins para chegar à felicidade. Trata-se de identificar e potencializar talentos e forças de caráter inerentes aos seres humanos para chegar a melhores desempenhos e a um maior bem estar. Não à toa, o campo deu origem a um dos cursos mais populares da Universidade Harvard.

Embora influenciem todos os níveis da vida de um indivíduo, o conhecimento sobre tais pontos podem ser especialmente vantajosos no sentido profissional – auxiliando na descoberta do chamado “fit” com o emprego e a carreira, por exemplo. Eles também não envolvem apenas um desenvolvimento pessoal – e, ao contrário, estimulam que se leve esse trabalho ao nível coletivo.

O que é?

A Psicologia Positiva surgiu e ganhou seus primeiros conceitos em 1998, quando o psicólogo americano Martin Seligman propôs o estudo das potencialidades e virtudes humanas. O objetivo era desenvolver um campo de pesquisa que não existia na Psicologia – que, por fatores históricos, em especial o período pós Segunda Guerra Mundial, concentrou-se no estudo das patologias e dos transtornos. Desde então, foram realizados diversos estudos científicos e acadêmicos para mapear tais características e encontrar fatores comuns entre diferentes povos e culturas.

O principal e mais antigo deles diz respeito a seis virtudes humanas: sabedoria e conhecimento, coragem, humanidade, justiça, temperança e transcendência. No decorrer do estudo, também foram identificadas e classificadas 24 forças de caráter – consideradas como “caminhos”, ou formas de agir e pensar, que direcionariam os indivíduos ao âmago das virtudes e os tornariam pessoas virtuosas.

Outra vertente acolhida pelo campo diz respeito aos talentos e pontos fortes. As pesquisas, lideradas pelo psicólogo Donald Clifton com o instituto de pesquisas Gallup, conceberam um total de 34 talentos humanos. Tratam-se de características inatas que aparecem com maior ou menor “protagonismo” em cada indivíduo, formando uma espécie de “ranking” no qual os cinco primeiros colocados são os de maior influência. Alguns exemplos de talentos são comunicação, empatia, disciplina e organização.

Hoje, o campo inclui outras diferentes vertentes mundo afora. Segundo Andréa Perez, especialista em Psicologia Positiva e idealizadora da Rede Felicidade Agora é Ciência, as forças de caráter e os talentos humanos são os conceitos mais trabalhados por profissionais do Brasil.

Ao que se aplica?

Embora não seja o único foco dos estudos, a carreira e a atuação profissional são grandes exemplos de como os talentos e as forças de caráter podem ser impactantes. “Pense em outra pessoa que tem a mesma formação que você. Quais são os talentos ou forças de caráter humanos que vocês têm, de forma diferenciada, que favorecem que cada um atue nesse campo?”, questiona Perez.

Quando tais características não “combinam” com a função que se exerce, há um desconforto. “Se você pega uma pessoa com amor pelo aprendizado e a coloca para tratar de assuntos de forma superficial, ela sentirá um incômodo imenso”, explica a especialista. Estimular a combinação entre as duas coisas, portanto, tende a melhorar tanto o desempenho pessoal quanto o engajamento e os resultados. Isso, porém, não exclui a necessidade de conhecimento e ferramentas técnicas inerentes ao trabalho – algo que a área chama de conhecimento factual.

A discussão também não diz respeito apenas ao desenvolvimento individual – e tampouco a uma escalada desenfreada rumo ao que se entende como sucesso. “Desde crianças, nós somos criados valorizando muito as conquistas individuais. No ambiente institucional, vemos isso se refletindo premiações e bônus individuais”, pondera Perez. Em resposta, segundo ela, o campo da Psicologia Positiva também apresenta uma forte proposta de que “juntos somos mais fortes”.

“Quando alguém pensa apenas no individual, e a própria empresa apenas valoriza isso, vemos cenários como 2% de pessoas satisfeitas e 98% não. Isso porque, muitas vezes, não é valorizado o tanto que a equipe fez para que aquelas pessoas obtivessem aqueles resultados”.

Como desenvolver?

A identificação das forças de caráter e dos talentos é feita por meio de avaliações, que se baseiam em estudos e critérios de psicometria. No caso das forças de caráter, instituições como o VIA Institute oferecem o teste de forma online e gratuita. Os talentos, por sua vez, podem ser mapeados em uma análise (paga) oferecida pelo Gallup.

Perez destaca que os conceitos também têm sido trabalhados por psicólogos clínicos, que tem buscado unir os dois campos para, inclusive, trabalhar quadros como ansiedade e depressão. “A cientificidade é algo que nutre e permeia a área. É o que distingue a psicologia positiva do campo de auto ajuda, por exemplo”.

Apesar disso, ela diz que algumas iniciativas têm surgido com o objetivo de levar o tema a mais pessoas – tirando-o do “pedestal” da área acadêmica. É o caso, por exemplo, dos aplicativos Live Happy e Happify, ambos disponíveis em inglês.

“A psicologia positiva vem para validar a felicidade e o bem estar”, destaca a especialista. “Não podemos crescer só economicamente. Precisamos crescer em termos de desenvolvimento humano”.

Fonte | Época

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