Candidatura de Haddad e retirada de Lula da corrida eleitoral foram destaque em jornais alemães. Consequências de ataque a Bolsonaro e perdas do Museu Nacional também foram temas abordados.   

Tagesschau.de – Lula cede lugar a novo candidato, 12/09

O Partido dos Trabalhadores do Brasil, PT, trocou seu candidato à eleição presidencial. Em vez do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso, quem concorre é Fernando Haddad, que até agora era candidato a vice.

O próprio Lula elogia e apoia a candidatura de Haddad. Num longo texto destinado a seus apoiadores, ele pediu que eles votem nele. “Hoje e no futuro, Fernando Haddad será o Lula para milhões de brasileiros”, escreveu.

Em sua conta no Twitter, o PT escreveu: “Lula é Haddad! Haddad é Lula!”

O novo candidato se apresentou com modéstia na nomeação oficial, dizendo que sente a dor dos brasileiros que agora não vão poder votar no candidato que escolheram. Numa pesquisa divulgada no dia 10 de setembro, as intenções de voto aumentaram de 4% para 9%. Apesar de o Tribunal Superior Eleitoral ter proibido a candidatura de Lula, ele liderou constantemente as pesquisas.

Frankfurter Allgemeine Zeitung – Uma facada, 11/09

Desde a última quinta-feira (06/09), não é mais Lula que domina as manchetes da cobertura das eleições. É que, durante um ato de campanha, o candidato presidencial de extrema direita Jair Bolsonaro foi gravemente ferido por um homem armado com uma faca. Uma operação de emergência foi bem-sucedida, o estado de Bolsonaro é estável. Aparentemente, tão estável que o candidato já está fazendo campanha da cama do hospital. Até segunda ordem, em vez de sair às ruas, Bolsonaro se mostra exclusivamente nas redes sociais, que já eram o seu instrumento de campanha mais importante. Ele quase não tem minutos de propaganda eleitoral no rádio e na TV por pertencer a um partido minúsculo. Apesar disso, ele está nitidamente à frente dos candidatos de partidos tradicionais nas pesquisas eleitorais.

Seja como for, as facadas transformaram Bolsonaro em vítima – vítima de um ódio político que ninguém sabe incitar melhor do que ele mesmo. Apenas alguns dias antes do ataque, Bolsonaro disse, “brincando”, que era preciso fuzilar todos os adeptos do PT. As mãos em forma de pistola, aliás, se tornaram sua marca registrada desse fanático pelas armas que idolatra a ditadura militar.

Desde quinta-feira, especula-se se Bolsonaro vai se beneficiar fdo ataque. Mas não há dados dos quais se possa depreender as consequências de um ataque a facadas a um candidato presidencial. Por que Bolsonaro seria beneficiado? Porque os eleitores agora têm pena dele? Possivelmente, o ataque poderá reforçar as convicções dos eleitores que Bolsonaro já tem. Mas praticamente nenhum eleitor deverá apoiá-lo repentinamente por causa da agressão.

É preciso aguardar se e como Bolsonaro vai usar o ataque na campanha. Independentemente disso, suas chances de ir para o segundo turno são grandes. Um em cada quatro brasileiros deseja ver esse homem presidente. Isso diz mais sobre o Brasil do que sobre as qualidades de Bolsonaro. O país que já parecia dividido em dois campos que mal tinham pontos em comum depois das eleições de 2014 escorregou ainda mais para os extremos. As bolhas nas redes sociais estão ainda mais isoladas, as divisões ainda mais rigorosas, e as “fake news”, ainda mais ousadas do que há quatro anos. Grande parte dos brasileiros se desvinculou da política tradicional e do mainstream. Cada um se sente seguro em seu próprio pequeno Brasil, no qual não existem contradições e onde as barreiras inibidoras são cada vez mais baixas. Acrescenta-se a isso a frustração com o aumento do desemprego, a violência e a corrupção. Também no Brasil, cresceu o número de cidadãos enfurecidos. O avanço de uma figura como Bolsonaro é a consequência lógica disso.

Süddeutsche Zeitung – Apagado, 08/09

Quando os três andares do Museu Nacional desmoronaram, os escombros enterraram coleções de duzentos anos, tesouros milenares, mapas históricos, gravações únicas, teses de doutorado, milhões de insetos conservados, conchas e corais, múmias e esqueletos, a sala do trono do imperador do Brasil e de regentes, a história de uma nação, uma parte da memória da humanidade.

O quinto maior país do mundo está numa crise de identidade. A economia fraqueja, a política enlouqueceu, a democracia desmorona, um candidato presidencial é atacado a facadas, apenas o crime organizado passa bem.

Stefan Zweig errou quando declarou, em meados do século 20, que o Brasil era “o país do futuro”. O Brasil sempre quis chegar lá, mas nunca chegou. Não consegue nem regulamentar o presente – entre outras coisas porque nunca aprendeu a lidar com o passado. Todas as reviravoltas dessa nação aconteceram quase silenciosamente. Nenhum dos grandes complexos violentos teve um processo sério de reconciliação – nem o colonialismo, nem a escravidão, nem o genocídio dos índios, nem a ditadura militar. Tudo isso causa abalos até os dias atuais e é diminuído com um discurso conciliador: tranquilo, vai passar.

Agora que só se pode lamentar, a consternação é equivalentemente maior. Formou-se uma corrente humana em volta da ruína ainda dominada pela fumaça. Foi como se o Rio tivesse entendido de repente o que foi perdido: um museu do povo, um dos poucos lugares democráticos da cidade que é dividida de forma obscena entre o morro e o asfalto, entre pobres e ricos, negros e brancos.

Fonte | DW

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