É comum, entre quem trabalha ajudando pessoas em situação de rua, acabar fazendo amizade com esses homens e mulheres que enfrentam tantas dificuldades. Mas a vereadora de São Paulo Soninha Francine (PPS), de 50 anos, deu um passo além: apaixonou-se por Paulo Sergio Rodrigues, que conheceu quando fazia trabalho voluntário embaixo do Minhocão, e o levou para casa para morar com ela.

Paulo, de 43 anos, nasceu em uma família pobre do Paraná e estudou só até a 4ª série. Morou em barracos em áreas de risco e desenvolveu alcoolismo na juventude, o que o levou a morar na rua por 20 anos.

Já Soninha ficou conhecida como VJ do canal MTV nos anos 1990, antes de se tornar vereadora pela primeira vez, em 2004. Formou-se em cinema na USP e tentou se eleger como deputada federal e prefeita de São Paulo. Foi secretária de Assistência e Desenvolvimento Social da prefeitura na gestão de João Doria por quatro meses, até abril do ano passado.

Apesar dos históricos de vida bem diferentes, os dois estão juntos há 4 anos – entre indas e vindas. Não se casaram formalmente, mas moram juntos e ela se refere a ele como marido.

No último dia 9 de agosto, ela lançou o livro Dizendo a Que Veio, pela editora Tordesilhas, no qual conta a história.

Em entrevista à BBC News Brasil, Soninha conta que a editora a procurou logo depois que seu relacionamento com Paulo veio a público, em 2017, em uma matéria do jornal O Estado de S. Paulo. Até então, só os amigos muito próximos sabiam do histórico do companheiro dela.

Soninha Francine e Paulo Sergio Rodrigues no lançamento do livro
Soninha lançou na semana passada o livro em que conta sobre seu relacionamento com Paulo

Todo mundo ficar sabendo “foi um alívio”, segundo a vereadora.

“Porque eu não saía apresentando o Paulo por aí com essa explicação: ‘desculpa qualquer coisa, ele morou 20 anos na rua’. Eu achava meio inadequado você apresentar seu marido e pedir desculpa”, diz ela, em conversa com a reportagem em seu gabinete na Câmara Municipal de SP.

“Não queria que julgassem. Não queria que olhassem nem com condescendência, nem com aversão.”

A vereadora conta que a convivência de Paulo nos ambientes em que frequenta com ela não era muito fácil. “O fato é que o jeito dele se comportar destoa. Ele não tem o traquejo social. Ele fica impaciente, reclama, fala alto, não tem modos”, afirma.

“Ele lembra muitas vezes uma criança, no sentido da inocência, de que nem sabe que normalmente a gente não se comporta desse jeito. É díficil”, diz.

O começo

Soninha conta que não previa as dificuldades que poderia enfrentar quando se apaixonou.

“No começo, sinceramente, eu não pensei nos problemas a mais que eu teria por estar me apaixonando por uma pessoa naquela condição”, diz ela.

Quando o conheceu, Paulo não foi entre os mais receptivos: não foi simpático, era o mais sujo da roda, rosto inchado. Mas foi se abrindo com o pessoal que fazia o trabalho voluntário e se cuidando: tomou banho, fez a barba para um passeio à praia, ganhou cuecas novas de Soninha.

“Eu percebi que tava apaixonada por ele… E aí você faz o quê quando se dá conta de que foi embora para casa pensando naquela pessoa? E no dia seguinte está contente porque vai encontrá-la, e se ele não está você fica triste. Minha primeira sensação de ‘caramba, lá vou eu’ foi a mesma de estar se apaixonando por qualquer um.”

Soninha e Paulo
Paulo Sergio conseguiu controlar o alcoolismo com ajuda de Soninha

Embora diga que “nunca sabe explicar porque algumas pessoas nos apaixonam e outras não”, ela conta como foram ficando mais próximos, descobrindo coisas em comum: que ele amava a música Losing my Religion, do REM, que achava Os Intocáveis um filme maravilhoso. Que ele era caridoso e cuidava dos outros: lembrava os amigos da rua de tomar o remédio, chamava ajuda quando alguém passava mal, guardava os cartões de benefício para os amigos não perderem.

Os dois conviviam bastante por causa do trabalho voluntário de Soninha, e ela começou perceber que o sentimento era recíproco.

“Uma mulher que morava na rua, que tinha um perfil diferente de outros moradores ali, que tinha feito faculdade de publicidade e tal, me falou: ‘Eu preciso te avisar uma coisa. O Dig Dig (apelido de Paulo) é apaixonado por você!’ Tipo, cuidado.”

Paulo tinha pegado uma foto dela de uma campanha eleitoral passada e ficava olhando para a imagem, chamando a atenção dos outros moradores da rua.

“Aí eu criei coragem e falei: ‘Denise, eu também. Eu sou apaixonada pelo Dig Dig'”, conta a vereadora, rindo.

Denise ficou em choque. “Cê é louca!”, respondeu.

Só quando Soninha percebeu que algo entre eles poderia realmente rolar que veio o “drama”. “Eu pensei: e agora? Como a gente vai fazer pra namorar? Eu vou me despedir dele e ele vai ficar aqui? Eu vou namorar com ele aqui, a gente vai dividir um cobertor aqui debaixo do Minhocão?”, conta ela.

O primeiro beijo foi de fato debaixo do viaduto. Depois a solução foi levar Paulo para a casa dela quando queriam ficar juntos. Mas isso só acontecia nos dias em que Julia, a filha mais nova de Soninha e única ainda a morar com a mãe, estava na casa do avó ou do namorado.

Nos outros momentos, ele voltava para rua. Depois acabou indo morar com ela.

Como conta no livro, não era a primeira vez que tinha levado para casa alguém que precisava de ajuda. “Crianças ensopadas de chuva, adultos com frio, famílias desalojadas, um ex-interno da Febem ameaçado de morte”, escreve ela. Soninha afirma que sempre quis cuidar, mas nunca antes tinha querido “dormir de conchinha.”

Apresentando à família

A família de Soninha, quando soube, se dividiu entre a preocupação e a desaprovação.

“Minha mãe e minha filha mais velha marcaram uma consulta psiquiátrica para ver se eu sabia bem o que eu tava fazendo. Elas achavam que eu tava fora… que eu tava vivendo alguma fantasia”, conta ela à BBC News Brasil.

Quando o médico afirmou que a paciente sabia o que estava fazendo, as três filhas aceitaram – mesmo que não necessariamente aprovassem, no começo.

O marido de Soninha, Paulo Sergio Rodrigues, no lançamento do livro
Paulo Sergio Rodrigues nasceu no Paraná e se mudou para São Paulo aos dois anos

“A minha mãe, não. Não se conformou, continuou sofrendo muito. E não aceita ainda até hoje. Ela reagiu super mal, foi bem, bem, bem negativo”, diz Soninha.

A vereadora diz achar que foi mais fácil para a filha do meio, Sarah, que é evangélica. “Uma coisa de abrir os braços e aceitar as pessoas como elas são.”

Soninha não compartilha a religião da filha, mas seu lado espiritual – ela é budista – foi um fator importante para entender e lidar com o novo relacionamento.

A filha mais velha, Raquel, passou a lidar melhor com a situação depois que o novo marido da mãe parou de beber.

“Ele passou pela vivência do ayahuasca (bebida psicotrópica usada em rituais) e parou de tomar pinga. E os relatos da Julia, que mora comigo, de que ele estava entrando em uma outra fase também ajudaram.”

Lidando com o alcoolismo

Antes dessa nova fase, no entanto, o alcoolismo de Paulo gerou uma série de problemas.

“A minha filha caçula viveu a treta toda, porque ela mora comigo. Ela realmente viveu os perrengues. Da gente trancar o Paulo para fora de casa porque ele estava loucão, intratável, então dá escândalo, grita, aí você chama a polícia”, conta ela.

Soninha não só pensou em desistir, como o fez: terminou com Paulo várias vezes.

Ela diz que nunca sofreu violência física, mas “chegou bem perto disso”, a ponto de ficar preocupada com sua segurança.

Seu trabalho fazia com que ela tivesse muito contato com a questão da violência doméstica, mas viver o problema na pele a deu uma nova perspectiva sobre o assunto. “Como é difícil, como as pessoas julgam. A minha sorte é que em todos os momentos em que precisei eu soube como e tinha como pedir ajuda”, diz ela.

Soninha diz que o último término só não foi definitivo porque Paulo realmente fez um esforço para ficar sóbrio. “Eu sei quando alguém está querendo me enganar, mas era o caso. Ele sinceramente estava querendo melhorar”, afirma.

“No começo eu aceitei ajudar, porque ele estava tendo crise de abstinência. Não ia voltar”, conta ela. Mas acabaram voltando. Ela explica com poucas palavras: “Foi o meu amor”.

Hoje, afirma ela, ele também cuida dela. “Ele cozinha, me ajuda a me organizar. Minha casa sempre foi uma zona, com ele lá agora fica tudo arrumado.”

Paulo agora trabalha em um centro de acolhida para pessoas em situação de fragilidade. E já não acha mais novidade andar de metrô, ir ao teatro, ao cinema.

“Outro dia ele estava lendo em voz alta e tanto eu quanto eles ficamos surpresos com a fluidez. Leu sem travar. Antes a leitura dele era truncada”, conta ela.

Vida profissional

A melhora do companheiro veio no momento certo, já que Soninha estava tendo problemas no trabalho.

Na época ela era secretária de Assistência e Desenvolvimento Social da Prefeitura, mas acabou demitida por causa de desentendimentos com seu subsecretário, Felipe Sabará – que era amigo pessoal do prefeito João Doria.

“O Felipe dava ordens diferentes das que eu tinha dado, escondia coisas de mim. O Doria queria as coisas com prazos que não eram possíveis, de maneiras que não trariam o resultado esperado. E o Felipe prometia exatamente isso, mesmo que não fosse viável”, afirma ela.

Depois da sua demissão, Doria fez um vídeo em que dizia que a “demanda” do trabalho não combinava com o “espírito” da secretária. Soninha, ao seu lado, ficava em silêncio.

“As pessoas falam do vídeo, mas, sinceramente, esse vídeo nem foi o que me incomodou. O que me incomodou foram dois meses em que o trabalho foi muito difícil”, afirma ela.

Apesar das rusgas com o tucano (que ficaram no passado, diz ela) Soninha continua tendo um bom relacionamento com nomes do PSDB, como o candidato à presidência Geraldo Alckmin e o ex-ministro José Serra.

São amizades que causaram estranheza quando ela saiu do PT e foi para o PPS, já que o partido recentemente tem sido mais associado ao conservadorismo – e Soninha ficou conhecida por defender ideias liberais, como a causa LGBT e a descriminalização do aborto e da maconha.

José Serra e Soninha no lançamento do livro
Depois de sair do PT, Soninha se aproximou de nomes do PSDB, como José Serra

“Acho que isso é muito injusto com eles. O governo de São Paulo teve muitos avanços em diversidade”, afirma ela. “Tivemos avanços em direitos humanos. A questão da (brutalidade da) polícia é um problema em todo lugar, não acho que é o Alckmin.”

Acostumada a aparecer nos jornais por questões políticas, Soninha não hesita quando questionada sobre como a história do seu relacionamento afetou sua imagem e sua carreira política.

“Tem dos dois. Quem já não gostava de mim usou isso pra dizer: ‘lá vai a louca, maconheira’. E teve quem entendeu, deu apoio. Nunca deixei de fazer ou falar o que acredito por causa de imagem”, conclui.

E como Paulo lida com tanta exposição? “Varia. Tem hora que ele sente muito orgulhoso de ter a história contada, tem hora que fica um pouco chateado.”

Fonte | BBC<

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