Pergunte, em qualquer lugar, a qualquer pessoa minimamente bem-informada ou instruída, o que ela entende por “saber uma língua” e eu garanto que, salvo casos raros ou exceções, ela há de responder “falar essa língua” – ou coisa parecida.

Isso não quer dizer, de forma alguma, que as demais habilidades linguísticas, ou seja, ouvir (reconhecer sons), ler (decifrar palavras e expressões escritas em contexto) e escrever (transpor para o papel ideias e sentimentos através de letras e palavras em frases ou parágrafos) sejam menos importantes ou mais desinteressantes do que falar (produzir sons vocálicos e consonantais inteligíveis). A questão aqui não é essa.

Por analogia, não se trata de querer saber quem é o filho preferido do pai ou da mãe, nem, no outro extremo, exigir saber se o filho gosta mais da mãe ou do pai. Essas são questões que ferem a individualidade humana e as emoções compartilhadas, abalando obviamente as relações sociais/familiares previamente estabelecidas.

Well, acredite ou não, o campo da linguagem, tão vasto e misterioso, também tem dessas coisas. Nele habita inclusive gente tão apaixonada por seus argumentos que chegam ao ponto de deixar de enxergar não apenas um palmo à sua frente, mas os próprios cílios que circundam os seus olhos. E vale lembrar sempre que nós, seres humanos, em maior ou menor grau, somos contraditórios. Ou seja, mesmo quem acredita piamente que falar é mais importante que as demais habilidades relativas ao campo da linguagem (i.e., ouvir, ler e escrever) quase sempre deposita na (maldita ou bendita?) tradução a prova cabal de que alguém sabe um dado idioma. Sinceramente, eis o que mais acontece…

E o que eu acho disso tudo? Bem, eu costumo dizer que traduzir não é para qualquer um. Ou, num tom mais provocativo, que é uma perda de tempo! E mais: repito e alto e bom som, para quem quiser ouvir, o mantra jerrymilliano segundo o qual – abre aspas! – “quem traduz nem sempre entende, e quem entende, bem, já nem precisa traduzir…” Traduzindo: embora possa não parecer, falar (em tese, guarde isso!) é mais fácil do que traduzir. Explico: quando falamos, somos senhores do nosso discurso, e geralmente empobrecemos a nossa argumentação; por outro lado, quando traduzimos, (in)felizmente, ficamos limitados ao que foi dito ou escrito por nós mesmos ou não, temos mais tempo para fazer adequações lexicais e gramaticais (as famosas revisões), bem como somos avaliados (por nós mesmos ou por outrem) de uma forma mais exigente e incisiva, por assim dizer.

Sem contar que a tradução (excetuando-se a simultânea) nos permite a consulta, a conferência e a correção, o que soaria como um misto de zombaria ou incompetência linguística se o mesmo fosse feito no momento da fala. Em outras palavras, traduzir requer o uso de técnicas e estratégias diferentes daquelas de que dispõe um falante em ação, na hora H. O tradutor, por exemplo, geralmente não tem platéia, pois o seu ofício requer maior concentração e atenção aos detalhes ou aos idiotismos da língua-alvo.

E como somos péssimos tradutores! O que é facilmente perceptível nas legendas dos filmes e séries disponíveis no país, a propósito. Nas aulas de língua inglesa, por sua vez, tópicos como a passive voice e o indirect speech, teoricamente mais fáceis para quem adora ficar traduzindo tudo o que vê pela frente, costumam complicar a vida dos nossos aprendizes que, desculpem o meu macaquês, ficam embananados à toa.

Agora, isso tudo me fez lembrar o que ocorreu um dia desses, quando, numa conversa num local público de nossa cidade, um (segundo ele) renomado profissional da área do agronegócio se gabava frente a mim e a um amigo em comum do seu talento incomum na área da agronomia e a sua “incrível habilidade” para a tradução de textos técnicos. Eu, sempre curioso e observador, escutava a tudo o que nos era dito com extrema calma e o maior interesse. Depois de muito blá-blá-blá da parte dele, o assunto simplesmente se encerrou quando eu fiz uma pergunta singela e despretensiosa ao Mr. Translation: se ele achava mais fácil traduzir do português para o inglês ou do inglês para o português.

Depois desse encontro, nunca mais tive o privilégio de conversar com tamanha sumidade na arte da tradução. Que pena…

Fonte | Jerry Mill -Mestre em Estudos de Linguagem (UFMT), membro-fundador da Academia Rondonopolitana de Letras (ARL), conselheiro da ALCAA (Associação Livre de Cultura Anglo-Americana) e associado honorário do Rotary Club de Rondonópolis

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One Reply to “Inglês traduzido”

  1. A tradução do professor Kurt Schildmann, que era o presidente da Associação Alemã linguística e ele conhecia bem mais de quarenta línguas… ele foi capaz de traduzir esse escrito.

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